Da adaptação ao “banho especial”: as futuras oficiais combatentes chegam na AMAN

As futuras oficiais combatentes da Turma “Dona Rosa da Fonseca – Patrono da Família Militar” chegaram na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Durante duas semanas, a turma passou por um processo de adaptação à rotina da academia. Dos 416 alunos oriundos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), 34 são mulheres. Além disso, mais dez alunos vieram de nações amigas – a exemplo da Arábia Saudita, Senegal, Guiana, Vietnã, Paraguai e Timor Leste.

A partir desse ano, a turma começa a cursar o Curso Básico, como é denominado o primeiro ano na AMAN. Para receber as primeiras cadetes, uma série de adaptações foram feitas na maior academia militar da América Latina, desde a reforma dos alojamentos até a capacitação de oficiais instrutoras, as quais foram instruídas essencialmente para essa nobre missão.

Neste ensaio fotográfico, você verá alguns momentos do período de nivelamento – como é conhecido a semana de adaptação – até o momento da aposição do brasão da Academia, que ocorre no “Banho Especial”, ritual de passagem onde o aluno da EsPCEx torna-se cadete da AMAN.

I. O nivelamento

Ano novo, casa nova: o nivelamento é o período onde os alunos da EsPCEx começam a se adaptar à nova instituição, a Academia Militar das Agulhas Negras, onde passarão os próximos quatro anos da formação. As atividades, no entanto, são intensas: começam de manhã e terminam apenas no final da noite.

Alunos durante instrução de ordem unida, no Pátio Tenente Moura, na AMAN.

Há um longo caminho a ser percorrido. No momento da foto, os alunos realizavam instrução de ordem unida.

Os alunos também passam por instruções teóricas, com o objetivo de se familiarizarem com alguns conceitos e equipamentos que utilizarão durante o ano.
Tenente Isis escrevendo um relatório médico sobre os cadetes da 2ª Companhia. O trabalho do oficial instrutor é essencial para que os futuros combatentes sejam bem instruídos e supervisionados durante a formação.

II. A hora do banho especial

Às 05h40, o som dos apitos serviu como um aviso de que o dia começaria diferente. Era o dia do banho especial. Considerado um ritual de passagem, o “Banhesp” marca o momento em que o aluno torna-se, então, cadete da Academia Militar.

Aluna preparando-se para o banho especial
Alunos se reúnem no pátio para realizar aquecimento
Esse é o momento em que os alunos partem para o banho especial. Todos os oficiais combatentes da AMAN passaram por esse ritual.

III. A formatura de aposição dos brasões

A passagem marca o final do período de nivelamento. É hora de receber, finalmente, os brasões da AMAN.

“Eu aceitei o convite da AMAN pelo grande desafio que seria exercer a função de Instrutora do Curso Básico, oportunidade inédita na Academia. Tal função seria ainda mais honrosa por contribuir com a formação das primeiras mulheres da linha militar bélica do Exército Brasileiro”, afirma a Tenente Laryssa, oficial instrutora da AMAN.

Capitão Jussara, uma das primeiras oficiais instrutoras da AMAN

Primeiro, os destaques de companhia recebem os brasões. Na foto, a Cadete Valquiria, da 4ª Companhia, recebe o brasão das mãos de um oficial
Cadete Valquíria, uma das 34 mulheres que chegaram na AMAN
Tenente Isis coloca o brasão da Academia em um cadete

Além dos oficiais instrutores, os cadetes mais velhos também apoiam algumas tarefas do período de adaptação. Na foto, a cadete do primeiro ano se apresenta ao cadete do quarto ano.

O banho de mangueira marca o final do ritual de passagem.

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

O primeiro ano na Academia Militar das Agulhas Negras

Onde tudo começou | Relatos da fotógrafa

05 de Fevereiro de 2016. Foram mais de 100km até chegar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Esse foi o dia em que eu me apresentei pela primeira vez ao comandante da EsPCEx e ao Corpo de Alunos. Durante um bom tempo, eu pensava em fazer o meu primeiro projeto fotográfico de longa duração. A partir do Estágio de Correspondentes de Assuntos Militares (ECAM), promovido pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército em 2015, descobri o que eu gostaria de documentar: a trajetória do oficial combatente do Exército Brasileiro.  A ideia era inédita e ninguém tinha feito um trabalho parecido. Era a hora de se arriscar.

O comandante da escola abraçou o meu projeto como se fosse dele, e de imagem em imagem, o projeto cresceu. Assim surgiu o Laços de Honra – O outro lado do Exército. Da EsPCEx, o projeto foi para a Academia Militar das Agulhas Negras. Dois anos do projeto já foram concluídos. No próximo ano, o passo será ainda maior: será a vez de conhecer a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

Junto com o projeto, uma turma também estava nascendo. Era a Turma 150 anos da Campanha da Tríplice Aliança. Assim que cheguei na EsPCEx, pude acompanhar o início do ano letivo. Jovens, de todos os cantos do país, deixavam seus lares para ingressarem na linha de ensino militar bélico. Com o famoso uniforme “cotonete” – composto por uma camiseta branca e calça jeans – os futuros militares chegavam na casa rosada. Logo, vestiram a primeira farda, receberam a boína, juraram à bandeira, ingressaram na Academia, receberam o espadim e agora escolherão as armas. Tudo passou muito rápido. Mais do que uma turma, eu ganhei uma família. Vi esses meninos crescerem e se tornarem homens.

O projeto inusitado despertou curiosidades e dúvidas, e eu vou respondê-las: não há militares na minha família e nunca tive contato com as Forças Armadas até realizar o ECAM, onde conheci a força terrestre. O tema, que sempre foi distante da minha realidade, hoje se desdobra através das minhas lentes e gera novos significados para mim e para todos aqueles que acompanham a evolução da série. A ideia foi minha, e voluntariamente, me dispus a acompanhar a formação do militar.

Além disso, a série tem suas peculiaridades: estou documentando a última turma de oficiais combatentes exclusivamente masculina. Vi pela última vez a EsPCEx e AMAN com turmas apenas compostas por homens. Durante esse ano, também acompanhei a entrada das primeiras mulheres na formação da linha bélica. Um período de grandes transformações, tanto individuais quanto coletivas.

Apesar da minha disposição, eu não cheguei aqui sozinha – o apoio de pessoas especiais tem sido o alicerce para que eu continue registrando essa trajetória. Muitos confiam e acreditam em mim. Sou profundamente grata a todas as pesssoas que admiram e apoiam o meu trabalho. Neste período, eu descobri o verdadeiro significado de camaradagem.

Por outro lado, também conheci os desafios da vida. Comecei a entender que nem todas as pessoas vão gostar do que você faz, mas apenas você sabe da sua batalha individual e do quanto você se esforçou para chegar onde chegou. Muitos a favor, e alguns contra: o projeto continua existindo. Até agora, foram mais de 60 idas e vindas. Muitas madrugadas dentro do ônibus e muitas horas de viagem. Tudo por um ideal. 

Em 2017, chegou a vez da minha turma ingressar na AMAN. Em um ano difícil, mas gratificante, os cadetes da Turma 150 anos da Campanha Tríplice Aliança concluíram o Curso Básico, como é conhecido o primeiro ano na Academia. Conheça, agora, esse longo caminho através das minhas imagens:

Inaugurada em 1944,  a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) é o único estabelecimento de ensino do Brasil que forma os oficiais combatentes do Exército Brasileiro. Longe das manifestações políticas da antiga capital do país, o Rio de Janeiro, a Academia foi construída na cidade de Resende, interior do estado. Por um curto período, o nome da instituição foi Escola Militar de Resende.
Mais do que uma escola, é na Academia que os cadetes constroem uma identidade e desenvolvem o sentimento de pertencimento ao Exército. Os valores e deveres militares – a exemplo do patriotismo, amor à profissão, espírito de corpo, respeito aos símbolos nacionais, lealdade, probidade, entre outros – são cultuados e preservados durante a formação do militar. Após a conclusão do curso, o cadete recebe o título de bacharel em Ciências Militares e é promovido a Aspirante a Oficial.
Ao se apresentarem na AMAN, os alunos oriundos da EsPCEx passam por uma rígida rotina de adaptação, que prevê atividades das 06h00 até as 22h00. Após a adaptação, eles recebem o título de Cadete – a rotina, por sua vez, continua apertada durante todo o ano letivo.
No dia 12 de fevereiro de 2017, os novos cadetes atravessaram os portões, simbolizando a entrada na Academia. Dessa forma, eles começavam o Curso Básico.

 

I. Curso Básico: aqui são forjados os líderes do futuro

“A primeira questão era sempre mostrar que cada cadete era capaz de vencer os óbices, por mais difíceis que parecem ser. A meu ver, a motivação é algo que deve nascer e prosperar internamente. Sendo assim, procurava apenas acender uma fagulha que os fizesse caminhar com os próprios passos.”

Tenente-Coronel Glauco Corbari Côrrea, comandante do Curso Básico

Se na Escola Preparatória os meninos compuseram uma única turma, na Academia eles eram os mais novos. A hierarquia e disciplicina estão, em todos os momentos, intrínsecas em cada passo dos futuros combatentes. Desde a alvorada até o toque de recolher, todas as marchas, hinos e símbolos afirmam o compromisso que eles juraram cumprir. Durante a formação, há dias específicos em que eles podem sair para conhecer outros lugares da cidade e regras detalhadas que norteiam a postura do militar. No Pátio Tenente Moura, onde os cadetes entram em forma várias vezes durante o dia, há uma frase gravada que reforça o motivo de todos esses valores serem tão cultuados: “Cadete! Ides comandar, aprendei a obedecer”.

Em um momento de consolidação do caráter militar, a imagem do oficial instrutor é um espelho para o cadete.  O Capitão Sérgio Marcos da Silva Junior, comandante de pelotão do Curso Básico, formou-se em 2010 – seis anos depois, retornou ao mesmo lugar onde passou quatro anos como cadete. Para ele, servir na Academia foi a mais nobre das atividades que realizou durante a carreira. “Trabalhar na formação daqueles que irão nos substituir exige muita responsabilidade, comprometimento e dedicação”, afirma.

Além de ministrar instruções militares, o comandante de pelotão acompanha a rotina diária dos cadetes, passando pelas formaturas, treinamentos físicos, refeições, horas de estudo e demais atividades. O Capitão complementa, “sempre me empenhei ao máximo para tratar meus subordinados, seja na Academia ou em qualquer outro lugar, baseado em três princípios fundamentais: respeito, exemplo e justiça. De forma franca e leal, me esforcei para mostrar, com o máximo de veracidade, as realidades da vida profissional e até mesmo pessoal que eles irão enfrentar depois de formados”.

Para o comandante do Curso Básico, Tenente-Coronel Glauco Corbari Côrrea, comandar o curso responsável pelo primeiro ano da Academia é uma função pela qual ele sempre teve grande admiração. “É um dos cursos mais emblemáticos do Exército Brasileiro e que todos os Oficias combatentes de carreira – independente da arma, quadro ou serviço – têm que passar”, relata.

Na rotina extremamente rígida do Curso Básico, Corbari ressaltou que motivar os subordionados e estar ao lado de todas as atividades foi um fator decisivo. “A primeira questão era sempre mostrar que cada cadete era capaz de vencer os óbices, por mais difíceis que parecem ser. A meu ver, a motivação é algo que deve nascer e prosperar internamente. Sendo assim, procurava apenas acender uma fagulha que os fizesse caminhar com os próprios passos. Logicamente que a rotina e a pouca experiência dos cadetes do primeiro ano não os permitiam enxergar com nitidez esses fatores hoje, no entanto foram sementes lançadas e que estarão amadurecidas ao final do quarto ano da AMAN”, conta.

Durante o ano letivo do Curso Básico, os cadetes realizam quatro estágios práticos supervisionados, a exemplo das operações Boa Esperança, Henrique Laje, Monjolo e Fit. Na Seção de Instrução Especial, eles executam o Estágio Básico de Combatente de Montanha.

Cadete se preparando para executar a Operação Henrique Laje.
A Operação Henrique Laje começava com uma marcha de 8km. Era a hora de seguir em frente.
Chegada na Fazenda Boa Esperança, um dos locais onde a operação foi realizada.

Cadetes em forma durante a formatura realizada durante a Operação Henrique Laje.

A Fazenda Boa Esperança é o cenário de diversas atividades do Curso Básico. Na foto, os cadetes seguem para a base, após realizarem instruções de tiro.

 

II. As instrutoras do Curso Básico

“O Exército Brasileiro é formado por homem e mulheres que vestem a mesma farda e seguem os mesmos princípios éticos e profissionais. Não devemos distinguir a pessoa pelo sexo e sim pela capacidade profissional dela. O preço do pioneirismo é alto, mas é importante para o processo. Acredito que quando essas cadetes retornarem para AMAN como instrutora, o processo estará consolidado e nada mais será novidade.”

Tenente Isis Cristina Paes Petcov

Com a chegada das primeiras mulheres combatentes na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia também se preparou para recebê-las no próximo ano. A admissão de mulheres na linha de ensino militar bélico tornou-se possível desde a entrada em vigor da Lei n 12.705, de 08 de Agosto de 2012, que permitiu o ingresso em áreas que eram totalmente restritas aos homens. A partir disso, um projeto de inserção do sexo feminino foi elaborado e de modo voluntário, quatro oficiais chegaram à AMAN para se tornarem as primeiras instrutoras.

Instrutoras do Curso Básico durante o Estágio Básico do Combatente de Montanha. Na foto, da esquerda para direita: Capitão Jussara Bortolucci Franco, Tenente Laryssa Sampaio Silva, Tenente Josimara de Macedo Santos e Tenente Isis Cristina Paes Petcov.
Instrutora do Curso Básico, Tenente Josimara, executando atividade de rapel e escalada durante o Estágio Básico do Combatente de Montanha, organizado pela Seção de Instrução Especial (SIEsp).
Tenente Josimara e Tenente Isis na Operação Henrique Laje, uma das principais operações realizadas pelos cadetes do Curso Básico.

 

Tenente Isis

A paixão de Tenente Isis Cristina Paes Petcov pelo Exército Brasileiro nasceu na infância. “Meu pai servia na AMAN quando eu tinha 10 anos. Eu estava presente em todas as formaturas e sempre vibrei com o espírito militar”, relembra. Disposta a seguir a mesma carreira, não teve essa oportunidade inicialmente – naquela época, a entrada de mulheres na linha de ensino militar bélica não era permitida. Após concluir o ensino médio, Isis foi orientada a seguir na área de medicina ou odontologia para tentar uma vaga na Escola de Saúde do Exército (EsSEx). Optou por ser dentista.

Além da graduação, Isis teve que cursar uma especialidade, pois só assim seria apta para ingressar na carreira de saúde. “Fiz os 5 anos de faculdade e depois tive que fazer mais 2 anos de especialização, pois as vagas só abrem por especialidades. Quando estava apta a prestar o concurso, já com o título de Periodontista, verifiquei que somente abria uma vaga para todo no Brasil no concurso”, afirma. Depois de nove anos de estudo, a tenente conseguiu a vaga.

Apesar da realização pessoal na área de saúde, o sonho de ser combatente nunca morreu. Quando surgiu a oportunidade de ser instrutora das primeiras cadetes da AMAN – as quais ingressarão em 2018 – Isis logo se voluntariou. Durante esse ano, ela e mais três oficiais passaram por uma série de adaptações dentro da formação na Academia: acompanharam a rotina dos cadetes e realizaram atividades nas operações militares. “É como se eu pudesse cursar um pouco da AMAN. A adaptação ao trabalho e a rotina academia não foi muito difícil, pois estou fazendo algo que gosto muito”.

Era a primeira vez que a AMAN recebia as primeiras oficiais instrutoras. “O mais difícil foi o ambiente antes inteiramente masculino acostumar com a presença das quatro instrutoras do Curso Básico”, relembra Isis.

Ao longo do tempo, a relação com os cadetes também foi consolidada. “Acredito que o cadete aprendeu a nos enxergar como um tenente como qualquer outro e nos respeitam da mesma forma com se fosse um tenente homem”, afirma.

Questionada sobre os principais desafios que enfrentou durante a adaptação, ela afirma que as maiores dificuldades não foram físicas ou intelectuais. “Acredito que tenha sido o preconceito, exatamente por nunca ter existido uma mulher nessa função. Todos tiveram que se adaptar com essa nova realidade. Muita coisa mudou, mas existe também muita coisa pra mudar”, conta.

Apesar das provações e desafios, a tenente pensa no futuro com muito otimismo. “O Exército Brasileiro é formado por homem e mulheres que vestem a mesma farda e seguem os mesmos princípios éticos e profissionais. Não devemos distinguir a pessoa pelo sexo e sim pela capacidade profissional dela. O preço do pioneirismo é alto, mas é importante para o processo. Acredito que quando essas cadetes retornarem para AMAN como instrutora, o processo estará consolidado e nada mais será novidade”, conclui.

Todas as missões devem ser cumpridas. Para Isis, o estágio de Montanha foi um divisor de águas. “Deixei meu filho, de menos de dois anos na época, com crise respiratória e fui me arriscar no Pico das Agulhas Negras. Fiquei sem notícias dele, pois não levamos celular, não sabia se ele tinha internado ou não. Além de viver esse embate o pessoal, superei todos os medos ao fazer as atividades de rapel e escaladas da mesma forma que o cadete do Curso Básico executa”, relata.

III. O Espadim

“Recebo o sabre de Caxias, como o próprio símbolo da Honra Militar.”

Considerada uma das datas mais significativas na carreira do oficial combatente, a Cerimônia do Espadim trata-se de uma conquista coletiva, onde os cadetes consolidam uma parte de sua formação no primeiro ano. Oficialmente cadetes da força terrestre, eles recebem uma réplica da espada do Duque de Caxias, o patrono do Exército Brasileiro. Dessa forma, o espadim representa o símbolo da honra militar. Para o Tenente-Coronel Glauco Corbari Côrrea, foi o momento mais marcante que vivenciou enquanto comandante do Curso Básico. “Vê-los perfilados no Pátio Tenente Moura, recebendo os espadins de suas madrinhas e padrinhos, nos encheu de orgulho, nos emocionou e nos fez acreditar que estávamos no caminho certo”, relata.

No dia 19 de agosto de 2017, os 463 cadetes da Turma 150 anos da Campanha da Tríplice Aliança reforçavam o seu compromisso com o Exército, recebendo a réplica da espada de Duque de Cxias.

IV. Os cadetes

“Os melhores laços de companheirismo que possuo hoje, é fruto da convivência nas atividades do Curso Básico.”

Cadete Alberto Koji Tanaka

Oriundos de todas as regiões do Brasil e de diferentes classes sociais, na Academia todos são iguais e ali eles permanecem diante de um único ideal. Os cadetes recebem um número e uma classificação de acordo com o mérito. Todos são tratados da mesma forma, passam pelas mesmas atividades e avaliações. As diferenças e interesses pessoais, por um momento, ficam em segundo plano para que os interesses coletivos prevaleçam. Os quartos são compartilhados nos quatro anos de formação na AMAN – não só os quartos, como também os planos, os sonhos e até mesmo as angústias e saudades da família.

Para alguns cadetes, foi na Escola Preparatória onde tiveram a primeira experiência de vida na caserna – para outros, a rotina militar já era mais familiar. O Cadete Alberto Koji Tanaka, antes de entrar para o Exército, serviu como soldado no Batalhão de Infantaria da Aeronáutica (BINFA-64), em São José dos Campos, interior do estado de São Paulo. Por uma questão de vocação, começou a estudar para ser oficial. “Mesmo diante das dificuldades da escala de serviço de um soldado, consegui passar nos exames de admissão da EsPCEx, onde surgiu um carinho muito grande pelo Exército. Tenho muito orgulho de ter servido a FAB também nos meus primeiros anos”, afirma.

O Cadete Vitor Chemim Viezzer se apromixou do Exército pelo dinamismo que a profissão proporciona. Em relação às suas expectativas profissionais, ele destaca o dever de defender a Pátria. “[Somos aqueles] que correm atrás dos problemas quando todo mundo está fugindo. No fim da vida quero saber que fiz algo importante, independente de ser conhecido por isso ou não”. Para o Cadete Humberto Câmara Abel, trabalhar para o bem coletivo tem sido sua principal motivação. “Nós, militares, trabalhamos visando o bem de outras pessoas, mesmo que isso ponha nossa própria vida em risco”, ressalta.

Ao serem questionados sobre o maior aprendizado que levarão desse ano, o Cadete José Tibúrcio Ribeiro Neto afirma, “Daiasaku Ikeda, um filósofo budista, uma vez disse que o propósito da vida não é ter uma lista de montanhas que escalou. É se tornar um excelente alpinista, pois assim será capaz de escalar todas as montanhas, mesmo as que não escolher. Acredito que esse é o maior aprendizado do Básico”. Para o primeiro colocado da turma, o Cadete Lucca Torres Rodrigues de Souza, o maior aprendizado foi conviver com as restrições e imposições. “Ano passado tínhamos aprendido a lidar com a falta de tempo para nós mesmos, mas na AMAN e no primeiro ano, principalmente, a gente aprende a lidar com muitas restrições que incomodam, seja sair fardado, ficar punido constantemente, correr no parque, pernoite na ala, que parecem ser pequenas, mas fazem muita diferença na forma como a gente leva a vida e se planeja”, conclui.

Após ultrapassarem esse período, os cadetes desenvolveram a confiança e criaram laços que nunca serão apagados. Os anos passarão, e mesmo após um longo tempo de carreira, todos eles se lembrarão do nome da turma e do próprio número. Apesar das dificuldades, é na convivência da caserna que as verdadeiras amizades se formam. “Família significa muito mais que um laço genético”, afirma o Cadete Viezzer. O Cadete Tanaka complementa, “os melhores laços de companheirismo que possuo hoje, é fruto da convivência nas atividades do curso básico”.

Do instante decisivo para a eternidade

“De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.”

Henri Cartier-Bresson

Do instante decisivo para a eternidade, as imagens abaixo, assim como todas as fotografias exibidas nesta reportagem, eternizaram os momentos vividos por mim e pelos meus irmãos, os cadetes da Turma 150 anos da Campanha da Tríplice Aliança. Obrigada por tudo.

 

“Grande parte da minha vida eu vivi no bairro Monte Castelo, vila militar de Resende, e constantemente via os cadetes passando em atividades de campanha e do dia a dia. Com isso, ainda pequeno me interessei pela carreira das armas, e incentivado pelo meu pai, aos 18 anos passei no concurso.

A rotina no primeiro ano da AMAN é intensa e durável. Ao longo do dia nos cadetes temos atividades que se iniciam às 05h50 e normalmente se encerram por volta das 19h30. Durante o curso básico, além de adquirir o conhecimento técnico profissional, que é de suma importância, eu aprendi a administrar corretamente o tempo, o que é extremamente necessário pra os anos seguintes na Academia.

No futuro, eu pretendo ser um bom oficial e servir como exemplo para meus pares, além de entender as limitações e capacidades dos meus subordinados.”

Cadete Mayck Abraão Werneck dos Santos

 

Em uma breve despedida, o Capitão Sérgio deixa uma mensagem. “Que prossigam em suas carreiras com a mesma fé na missão e amor à Pátria que demonstraram durante o ano que passou e, principalmente, que cultuem eternamente os valores aprendidos no Curso Básico, pois são esses valores que, reverberados nos corpos de tropa, garantem ao secular Exército Brasileiro tamanha credibilidade e prestígio junto ao nosso país.”

 

 

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

Agradecimentos especiais ao Tenente-Coronel Washington Harryson Alcoforado, meu eterno instrutor e amigo, que conduziu com profissionalismo o ECAM e acreditou no meu projeto desde o início. 

 

A perseverança para sobreviver no Estágio de Vida na Selva

Enfrentaram o frio, o medo
a morte, a fúria dos bichos
Enfrentaram o frio

Lança na mão hei hei hei
Caçador hei hei hei
Predador hei hei hei
Da Amazônia, das savanas

(Ronaldo Barbosa – Abangüera)

Se eu pudesse resumir o Estágio de Vida na Selva e Técnicas Especiais em poucas palavras, eu afirmaria que é um estágio riquíssimo, onde tive a oportunidade de me sentir mais brasileira. Conhecer e aprender com pessoas de outras regiões do Brasil é uma experiência muito significativa. Essa foi uma semana que eu aprendi um pouco mais da nossa Amazônia, da nossa gente, da nossa terra.

Os personagens, desta vez, são os cadetes do segundo ano da Academia Militar das Agulhas Negras. Como diferencial neste estágio, podemos destacar os instrutores do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e do Centro de Instrução e Operações na Caatinga (CIOpC), que vieram até Resende para ensiná-los. As instruções ocorreram na Área de Instrução Especial Capitão Lacerda (AIEsp), localizada na própria Academia.

Obtenção de água e fogo

Muito além de uma instrução, os conhecimentos sobre obtenção de água e fogo na selva valem para a vida. Sem esses dois elementos, sobreviver na natureza é impossível.

A evolução da humanidade tornou-se possível graças ao domínio do fogo. Na foto, Sargento Vanilson demonstra aos cadetes algumas técnicas para obtenção de fogo.

 

“Um fogo cuidadosamente manejado podia transformar bosques cerrados intransponíveis em campos cheios de animais de caça.” (Trecho do livro Sapiens: uma breve história da Humanidade)

Sobreviver na selva

Camuflagem
Deslocamento do pelotão: mais instruções pela frente.

Construção de abrigos improvisados e semi-permanentes

Técnicas aeromóveis 

Nesta etapa do estágio, os cadetes do segundo ano aprendem técnicas de desembarque em aeronaves, desova em meio aquático e desembarque pela técnica do rapel. Esse aprendizado também será útil no Estágio de Patrulhas de longo alcance.

Obtenção de alimentos de origem vegetal | Caatinga

O Centro de Instrução e Operações na Caatinga (CIOpC) também esteve presente no estágio para mostrar os alimentos que podemos consumir nesta região. Na foto, Tenente Freire explica sobre a Palminha, vegetal típico da Caatinga.
Após as demonstrações, os estagiários experimentaram alguns vegetais da Caatinga.
A umbuzada, bebida típica do Nordeste, é feita com o fruto do umbuzeiro. A bebida é preparada a partir do cozimento do umbu, misturado com açúcar e leite.

Obtenção de alimentos de origem vegetal | Amazônia

Se na Caatinga os vegetais são semelhantes, na Amazônia o cenário muda. A maior riqueza do Brasil estava em todos os lugares: dos alimentos até as grandes árvores e rios.
Na foto, o instrutor mostra alguns alimentos. Neste ano, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) divulgou um relatório que apontou 216 novas espécies de plantas na Amazônia.
A experiência de um homem que serviu no Centro de Instrução de Guerra na Selva por mais de 30 anos ampliava os horizontes dos futuros combatentes do Brasil.
A variedade de bebidas, frutas e vegetais era imensa.
Esse é o 3º Sargento Claudio Silva Bandeira. Em 1982, ingressou no Exército Brasileiro como soldado. Adquiriu muita experiência – sempre presente na Amazônia, servindo fielmente à Pátria. Por merecimento, foi promovido a Sargento. Ele continua no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), compartilhando suas conhecimentos e instruindo os futuros guerreiros da selva.

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Relatos de uma longa patrulha | Conheça o terceiro estágio da Seção de Instrução Especial

Dai-me, Senhor meu Deus, o que Vos resta;
Aquilo que ninguém Vos pede.
Não Vos peço o repouso nem a tranquilidade,
Nem da alma nem do corpo.
[…]
Mas dai-me, também, a coragem
E a força e a fé.

(Trecho da Oração do Paraquedista)

Era a vez dos cadetes do terceiro ano da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) iniciarem mais um estágio da Seção de Instrução Especial (SIEsp). Enquanto os outros três estágios ocorrem em apenas um lugar, o Estágio de patrulhas de longo alcance com características especiais ocorre em diversas regiões. Na maior parte do tempo, ficamos na Represa do Funil, interior do Rio de Janeiro no entanto, outras instruções militares foram realizadas nas cidades de Queluz, Areias e São José do Barreiro, localizadas no Estado de São Paulo.

Seja na água, seja na terra, seja no céu, as instruções deste estágio são amplas e bem complexas. Com uma temperatura mínima de 8ºC graus e máxima de 33ºC, o frio e o calor estiveram presentes nesses dias. Em um cenário de guerra, os cadetes tiveram a oportunidade de comandar pelotões na execução de patrulhas, realizando captura de material, destruições e até emboscadas. Do bote ao helicóptero, todas as instruções contaram com uma variedade de meios terrestres, fluviais e aéreos.

Como nos outros estágios da SIEsp, os atributos físicos e afetivos são muito cobrados dos militares. Nos últimos dias, os cadetes realizam uma evasão no território inimigo – uma longa marcha de 40km é o cenário desta operação. Apesar do cansaço, é extremamente compensador o que sentimos após o término de todas as atividades.

Impressões sobre a SIEsp

Em todos os campos e operações que eu fotografo, tenho a oportunidade de ouvir muitas histórias – mas sempre é diferente quando os oficiais relembram da Seção de Instrução Especial. Os anos podem passar, mas os militares nunca se esquecem do que acontece aqui, e isso vale para os nomes dos instrutores também.

Desde a sua criação, em 1967, a SIEsp tem como objetivo desenvolver nos cadetes atributos como capacidade de decisão, resistência física, mental e psiquíca – características imprescindíveis ao líder militar. Para isso, todos os estágios buscam o máximo de realismo possível, aproximando-se do combate real.

  

 

   

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

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Conhecendo o sabor dos ventos | Estágio do Combatente de Montanha

Senhor!
Vós que sois onipotente
Concedei-nos no fragor da luta
A nós que vencemos nas pedras
A nós que conhecemos o sabor dos ventos
O destemor para combater
A Santa dignidade para perseverar
A força da coragem para sempre avançar
E a fé para tudo suportar
E dai- nos também, ó Senhor Deus
Quando a guerra nos for adversa
E quanto maior for a incerteza
A determinação de nunca recuar
E ante o inimigo jamais fracassar

MONTANHA!

(Oração do Combatente de Montanha)

Longe das operações em ambientes urbanos e das patrulhas ostensivas da última SIEsp, chegou a vez de enfrentar o estágio mais enigmático da Seção de Instrução Especial: o Estágio Básico do Combatente de Montanha. Não lidaríamos apenas com as nossas próprias limitações – mais do que nunca, era necessário respeitar a natureza e nunca duvidar de sua magnitude.

O estágio, no qual os cadetes do primeiro ano da AMAN são submetidos, é realizado no Parque Nacional de Itatiaia. Em seu interior, encontra-se um dos picos mais altos do país, o Pico das Agulhas Negras, com 2.790 metros de altitude, sendo este o ponto culminante do estado do Rio de Janeiro e o quinto ponto mais alto do Brasil. O maciço, por sua vez, recebeu este nome devido às canaletas escuras e verticais.

O fino manto de gelo que cobria boa parte da vegetação denunciava as condições climáticas que iríamos enfrentar durante a semana: temperaturas negativas que chegaram aos -7ºC e ventos superiores a 60 km/h. Não foi fácil. Muito além de nossos medos e incertezas, a natureza nos abrigaria e lembraríamos o tempo todo que fazemos parte dela. Lembraríamos também que não somos superiores a nenhuma outra espécie ou forma de vida existente nesta terra.

No frio extremo da montanha, o espírito de corpo tornou-se essencial. É impossível viver neste mundo sozinho.

Para frente e para o alto: 2.790 metros

Quinta-feira, 05h30 da manhã. Na reta final do estágio, após diversas instruções realizadas durante a semana, era a minha vez de escalar o Pico das Agulhas Negras com os irmãos da caserna. Confesso que tive medo e dificuldades, mas a minha persistência e a vontade de conhecer o pico que deu nome à Academia Militar era maior. Então a marcha começou.

O abrigo ficava cada vez mais distante e o sol ainda não tinha nascido. No frio e na escuridão passamos por aquelas trilhas que nos levariam até a base do pico. Após a chegada, nos preparamos para a subida. Conforme subíamos, o ar se tornava cada vez mais rarefeito. Em diversos momentos da escalada recordei de algumas situações que foram difíceis para mim: felizmente, eu havia vencido todos esses dias. Já parou para pensar que você passou por todos eles também? E assim sobrevivemos.

Depois de três horas, lá estávamos nós. Marcada por um vento extremamente forte e um frio intenso, a subida tinha valido a pena. Uma vez ou outra, o som dos ventos dividia espaço com a oração do combatente de montanha, cantada pelos cadetes. Estávamos (literalmente) nas nuvens.

Às vezes, a nossa alma precisa de lugares que o homem ainda não modificou.

Prontos para descer, tínhamos apenas uma certeza: como já dizia Francis Bacon, só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe.

 

 

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

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A última SIEsp: as múltiplas faces do Estágio de Operações contra Forças Irregulares

Na paz ou na guerra sempre há
Um comandos preparado para lutar!
Se a pátria lhe pedir, está pronto para partir
Não importa o lugar!
Na selva, na montanha ou no mar
Onde seja necessário atuar
Surge do céu seu braço forte
Se preciso enfrenta a morte
Sua estrela há de brilhar!

(Trecho da Canção dos Comandos)

Da montanha para a selva

Desde o primeiro ano da AMAN, os cadetes realizam estágios que têm por objetivo desenvolver habilidades e avaliar o desempenho dos futuros oficiais combatentes. Estas instruções, por sua vez, são ministradas pela Seção de Instrução Especial (SIEsp), a qual é composta por uma equipe apta para atuar nos mais variados ambientes de conflito, seja no frio das regiões montanhosas, seja no calor úmido da selva. As missões se assemelham ao combate real: ou seja, há um nível muito maior de dificuldade se comparado com as demais instruções militares.

Para os cadetes do primeiro ano, a Seção ministra o Estágio Básico do Combatente de Montanha; já os cadetes do segundo ano realizam o Estágio de Vida na Selva e Técnicas Especiais. Para o terceiro ano, a equipe realiza o Estágio de Patrulhas de Longo Alcance com Características Especiais; para o quarto ano, é ministrado o Estágio de Operações contra Forças Irregulares.

A minha visão

O quarto ano da Academia Militar das Agulhas Negras chega e os cadetes estão a um passo de se tornarem aspirantes. Aquele futuro, outrora tão distante, está próximo de se concretizar – no entanto, é preciso trilhar este caminho sem pular nenhuma etapa. Ainda é necessário passar por provações e desafios: a última SIEsp vai começar. Preparo a minha câmera; o colete, o capacete e o coturno me aguardam – e eu, como uma fotógrafa fiel, estou disposta a enfrentar esta última etapa com os irmãos que a caserna me deu. Desta vez, a ansiedade não é a minha única companheira.

Você tem certeza que está fotografando o melhor lado do Exército? ” – Pergunta um cadete. Reflito e em seguida respondo: sim.

Não são momentos fáceis. No entanto, acredito fortemente que a escassez e a dificuldade forjam as pessoas, e, com isso, elas tornam-se mais fortes. Geralmente quem está do outro lado desconhece o que aquela pessoa precisou enfrentar para estar ali, naquela formatura, com o uniforme de gala azul ferrete*. Quando o estagiário me questionou a respeito do meu trabalho, lembrei da minha própria trajetória: eu nunca tive o melhor equipamento. Não tive acesso a cursos pagos de fotografia. Mas estudei e fiz do meu simples equipamento a melhor câmera do mundo – através dos meus olhos, busquei captar a essência de todas as situações que presenciei. Da mesma forma, por trás do uniforme de gala, há uma pessoa que passou dias sem dormir direito, carregando mochila pesada e suportando muita pressão psicológica. Só quem passou sabe como é.

Fotografar a SIEsp, portanto, é uma honra para mim. Estou sim, fotografando o melhor lado de cada um, pois é aqui que nós somos forjados: na dificuldade, nos extremos e na escassez. Apesar de todas essas dificuldades, o companheirismo e o espírito de corpo é o que nos mantém dispostos a seguir em frente.

E assim nós sobrevivemos cada dia: caminhando um passo de cada vez.

*Traje utilizado pelos cadetes em ocasiões especiais.

O planejamento e a preparação dos meios para ordem à patrulha

“A guerra é de importância decisiva para o Estado. […] Ela é determinada por cinco fatores, os quais nós temos de tomar em consideração em nossas reflexões se quisermos avaliar corretamente a situação no campo de batalha: Direito moral, céu, terra, condução e método. O Direito moral leva os soldados a seguir incondicionalmente seus superiores e nisto não temer qualquer perigo. Céu significa dia e noite, calor e frio, tempo e estação. Terra significa proximidade e distância, perigo e segurança, estreiteza e amplidão, vida e morte. Condução significa sabedoria, sinceridade, benquerência, coragem e rigor. Método abrange a estruturação hierárquica do exército, o sustento das linhas de reforço e o controle dos gastos militares.”

(Trecho do livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu)

Antes de partirem para a missão, todo planejamento é necessário para que as ações sejam executadas com êxito. Na foto, estagiários se preparam na Base Saci, em Quatis, interior do Estado do Rio de Janeiro.

Operação de Busca e Apreensão

O estágio começa. Há muito o que fazer. Neste momento, nos dirigimos ao local da operação.
Curiosidade: um senhor para na linha do trem para ver o cadete passar. O movimento da tropa desperta a atenção dos moradores locais, que olham admirados para os futuros oficiais combatentes.
Os estagiários chegam no ponto de ação. A Operação de Busca e Apreensão é uma das instruções militares realizadas pelos cadetes nesta SIEsp.
A Operação de Busca e Apreensão é finalizada com sucesso. Todas as atividades feitas na SIEsp se assemelham ao combate real.

Patrulhamento Ostensivo

“O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo.”

(Trecho do livro “Guerra e Paz”, de Leon Tolstoi)

Garoto anda tranquilamente de bicicleta, enquanto os militares fazem o patrulhamento ostensivo, em Quatis – RJ.

Patrulhamento Motorizado e Escolta de Comboio

Antes de partir para o deslocamento motorizado, a tropa é inspecionada. Desta vez, a atividade será noturna.

Começa a esfriar. Ainda estamos no começo da semana.

Estagiário durante a escolta de comboio, em uma noite fria na cidade de Quatis. A missão está apenas começando.

Um dia na base Saci

“Segundo a compreensão dos antigos, um combatente sagaz alcança suas vitórias com facilidade. Por conseguinte, suas vitórias não lhe trazem a fama nem de sabedoria nem de coragem. Ele ganha suas batalhas evitando erros. Uma vez que ele evite erros, a vitória lhe está assegurada, pois o inimigo já está de antemão derrotado.”

(Trecho do livro “A Arte da Guerra, de Sun Tzu)

Um novo dia começa, e as atividades se iniciam na parte da manhã.
Após a realização do planejamento da missão, os estagiários se deslocam até o ponto que deverão ficar durante o dia.

Na foto, cadete se prepara para atuar na segurança da Base Saci. A MAG é uma metralhadora de origem belga, com alcance útil de 1.800 metros. Utilizada pelas Forças Armadas brasileiras, é capaz de realizar até mil disparos por minuto.

Estagiários na segurança da Base Saci, durante o Estágio de Operações contra Forças Irregulares.
O espírito de corpo militar é forjado nestes momentos. Longe da família e dos amigos, a companhia que temos é dos nossos irmãos de farda.

Um imprevisto acontece. Os estagiários se reúnem para fortalecer a segurança da Base Saci.

São nos momentos de dificuldades que nos fortalecemos. Esse é o aprendizado que eu e os irmãos da caserna levaremos para o resto de nossas vidas. E com esperança, a última luz da SIEsp renova as nossas energias.

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

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Uma decisão para a vida: a escolha das armas

“Cadete do Brasil
Conduz o teu fuzil!
Ao lado do canhão,
A par da Engenharia,
Da Intendência,
Da Cavalaria,
Material Bélico e Comunicações…”

(trecho da canção da Academia Militar das Agulhas Negras)

 

O ano letivo da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) é marcado por um evento decisivo na vida de todos os oficiais combatentes. Os cadetes do segundo ano da academia reúnem-se no auditório para realizarem a escolha da arma, quadro ou serviço que atuarão pelo resto de suas vidas –  entre as opções, estão as armas de infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia, comunicações, o serviço de intendência e o quadro de material bélico.

Este momento, por sua vez, define inúmeros aspectos inerentes à vida do militar – desde as especializações e cursos que poderão ser realizados até os quartéis que o futuro oficial poderá servir no decorrer da sua profissão. Nos anos seguintes, os cadetes continuarão a formação nos respectivos cursos, moldando-se através dos valores cultivados por cada arma.

O que motivou o cadete Gabriel Aragão de Souza Castro a escolher o serviço de intendência foi o espírito do curso. “O companheirismo entre os companheiros de pelotão sem dúvida  é o maior laço dentro da intendência”, comenta. Para o cadete Bruno de Araújo Cavalcante, a infantaria sempre foi uma referência e objetivo de vida. “Escolhi a Infantaria por afinidade profissional, pela história da arma, e por tudo que eu imaginei antes de entrar pro Exército se resume na Infantaria”, ressalta.

No mês de fevereiro, 451 cadetes do segundo ano da AMAN fizeram a sua escolha – uma decisão que levarão para sempre.

E assim eles foram recepcionados:

Filhas de Quitéria: as primeiras mulheres combatentes do Exército Brasileiro

Em 1822, uma mulher lutava pela manutenção da independência do Brasil. Maria Quitéria de Jesus Medeiros, a primeira brasileira a integrar uma unidade militar do país – disfarçada de homem e conhecida como soldado Medeiros – já mostrava que as mulheres poderiam atuar na frente de batalha com muita audácia e competência. Após 195 anos da sua integração, as mulheres finalmente podem ser admitidas na linha de ensino militar bélica.

Pela primeira vez, as futuras oficiais combatentes atravessaram os portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), no dia 18 de fevereiro. Das 440 vagas disponíveis no concurso de admissão, 40 foram destinadas ao segmento feminino.

Entre as 29.771 pessoas que se inscreveram no maior concurso da escola preparatória, 7.707 eram mulheres. Para elas, a concorrência foi mais acirrada: 193 candidatos por vaga. De acordo com o chefe da Seção de Concurso Tenente Coronel Roberto Paulo Moreira Nunes, a admissão de mulheres e a exposição da mídia contribuíram para o aumento das inscrições. “Houve um interesse maior na carreira e consequentemente o aumento do número de inscritos”, ressalta.

De acordo com o professor de história Coronel Orlando Roque de Simone, este momento histórico faz parte de uma evolução natural que está ocorrendo na sociedade brasileira. “Durante muito tempo as mulheres não tiveram o direito a voto no Brasil, durante muito tempo as mulheres que trabalhavam fora de casa eram mal vistas, tinha um preconceito. De uns tempos pra cá, a mulher vem ganhando bastante espaço dentro da sociedade brasileira, e assim está ocorrendo no Exército Brasileiro”, comenta.

Comandante da EsPCEx Coronel Dutra e a aluna mais nova da turma, Emily Braz, 16, abrem os portões da escola preparatória durante a cerimônia de entrada dos novos alunos
Alunas e alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército durante a cerimônia de entrada, realizada no dia 18 de fevereiro, em Campinas – São Paulo

Para o comandante da EsPCEx Coronel Gustavo Henrique Dutra de Menezes, comandar a escola neste momento inédito da história do Brasil é muito gratificante. “Quando soube que ano passado seria o ano de concurso da admissão, considerei isso uma oportunidade maravilhosa, um desafio fantástico e encarei como um presente estar aqui neste momento tão importante para a escola e para o Exército”.

Dentro da escola, inúmeras adaptações foram feitas antes mesmo das primeiras mulheres entrarem na instituição – desde a escolha das instrutoras até mudanças na infraestrutura. “A EsPCEx se preparou com muita atenção e muito carinho para receber nossas alunas. Essa preparação não envolve só a parte de infraestrutura, não é só obra. Tem a questão do regulamento e do comportamento. Nós tivemos que adequar algumas normas da escola e tivemos que preparar intelectual e psicologicamente os militares do corpo permanente”, afirma o comandante.

Elas por elas: conheça as instrutoras da primeira turma de mulheres da EsPCEx

Tenente Paola de Carvalho Andrade

Nos bastidores do Exército Brasileiro – enquanto ocorriam diversas adaptações para receber a primeira turma do segmento feminino – grandes mudanças e surpresas ocorreram nas vidas de outras mulheres, militares formadas na Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx) e que trabalhavam em suas áreas específicas. Sem formação na linha bélica, este foi o destino da jornalista Tenente Paola de Carvalho Andrade e da enfermeira Tenente Thaynan Miranda Amorim, que se tornaram instrutoras da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

O curso de formação de oficiais da linha de ensino militar bélica realizado em cinco anos – 1 ano na escola preparatória e os quatros anos seguintes na Academia Militar das Agulhas Negras – prepara o indivíduo para comandar e instruir pelotões e companhias. No entanto, com apenas nove meses de formação na escola complementar, as tenentes abraçaram a causa e foram à EsPCEx, cientes dos inúmeros desafios que iriam enfrentar, com o objetivo de serem as instrutoras da primeira turma de mulheres.

Quando soube que tinha sido nomeada, Paola estava no Haiti, trabalhando em uma missão de paz. “Eu estava no Haiti quando o comandante da guarda me chamou e me contou que eu tinha sido nomeada. Para mim foi uma surpresa, porque eu não tinha nenhum plano, eu não sabia”, recorda.

A surpresa também tomou conta de Thaynan, que logo se empolgou com a ideia de ser instrutora. “Eu me formei em 2014 e em 2015 eu estava no Hospital Militar de Campo Grande. Em novembro de 2015, eu recebi a notícia de forma bem inesperada. Eu estava assumindo o plantão e o meu ex-comandante de companhia estava me parabenizando no facebook pela minha nomeação. A princípio eu me assustei, de repente minha vida mudou da água para o vinho. Eu ia sair da minha função para exercer uma função diferente, e teria que começar do zero”, comenta.

As tenentes também passaram por treinamentos e aprenderam como se dá a formação na linha combatente. Instruídas pelos próprios comandantes de companhia e de pelotão, as oficiais do quadro complementar aos poucos foram construindo a própria identidade militar.

Para Paola, elas também foram alunas neste processo de adaptação. “Algumas coisas nós já tínhamos feito e refizemos, mas não foi um ano fácil. Nós dizemos que também foi um ano de aluna. Eu estava acostumada com a vida de jornalista, hoje tenho uma vida de militar. Eu tenho horários diferenciados iguais a uma tropa de escola – isso é mais cansativo. Me deram missões que eu achava que não teria que passar por elas, como marchar, carregar peso, carregar fuzil, porque eles queriam ver se a gente conseguia – testar na gente para ver o que as alunas conseguiriam”, comenta.

“No começo tentei observar muito para poder criar esta minha identidade como instrutora. A rotina é bem pesada, porque ela tira você da zona de conforto e coloca numa zona quente, para poder evoluir essa pessoa o mais rápido possível”, diz Thaynan, realizada com a missão que recebeu.

Tenente Thaynan Miranda Amorim

Emocionada, a enfermeira se sente grata por contribuir com a formação dos futuros oficiais do Exército Brasileiro. “Hoje eu sei ser mais militar do que enfermeira. É muito bom cuidar das pessoas, mas eu consigo aplicar um pouco disso aqui. O mais legal dessa profissão é conseguir ver a evolução que eles têm ao longo do ano. Eles chegam completamente perdidos, nunca saíram de casa e talvez nunca tenham lavado uma roupa. Eles entram meninos e saem homens, porque a evolução é muito grande. Acompanhar o amadurecimento e a evolução deles, e sentir que de alguma forma você faz parte disso é muito gratificante, é um sentimento inexplicável. Tanto que na formatura no final de 2016, com a saída da minha primeira turma, foi difícil conter a emoção porque a gente ensina, mas também aprende muito”.

A importância do exemplo e de fazer um trabalho em que as alunas realmente acreditem é fundamental para Thaynan. “Elas precisam ter esse discernimento, saber que o preço do pioneirismo é esse, são elas que vão ter que ganhar espaço para as outras conseguirem chegar, até que todo mundo esteja devidamente à vontade dentro da posição que ocupa”.

Para o futuro, as expectativas são muito positivas. Transformadas e amadurecidas, as tenentes enxergam este momento como uma grande conquista para as mulheres – cientes de que a união entre elas pode fazer a força. “As alunas tem ciência disso. Uma das alunas que entrou agora disse que tem uma obrigação de fazer o curso e de deixar a porta aberta para as seguintes, pois essa é uma oportunidade que muitas queriam ter e não tiveram. A mulher no Exército é uma coisa que não é comum, e o Exército está aprendendo a lidar com isso. Têm mulheres no Exército, eu estou aqui e tem outras colegas, mas na função que era especifica do homem não tinha, então é uma adaptação a um meio que é totalmente masculino. Certamente a gente vai mudar muita coisa só com a nossa presença e isso causa certo incomodo. Para você mudar uma cultura causa um certo incomodo, mas o que vemos aqui é a boa vontade, todo mundo está na boa vontade de recebê-las e de formá-las”, reforça Paola.

Apesar de estarem em um ambiente majoritariamente masculino, Thaynan acredita que a entrada das mulheres fará com que elas ganhem mais espaço no Exército Brasileiro. “Eu gostaria de fazer isso por mais tempo e de ver várias turmas se formando. Eu sei que daqui pra frente, até o nível de profissionalismo e intelectual tende a subir, porque elas vão fazer isso. Elas entendem do que são capazes e continuam brigando por um espaço. Eu sei que vamos chegar muito longe – talvez eu não esteja viva para ver, mas uma dessas aqui talvez seja general no futuro, será aquela que pode mudar alguma coisa. Essa experiência foi algo que me modificou muito”.

Presente em todas as áreas de formação do Exército, as mulheres agora poderão alcançar o generalato – e daqui um tempo, as primeiras oficiais combatentes comandarão os diversos batalhões do Brasil.

Alunas comemorando durante a cerimônia de entrada dos novos alunos da Escola Preparatória, realizada no dia 18 de fevereiro

A presença dos grupos religiosos no Exército Brasileiro

A trajetória de formação do oficial combatente do Exército Brasileiro é longa e cheia de desafios. No primeiro ano de formação, os alunos estudam na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, localizada em Campinas, interior de São Paulo. Após concluírem o primeiro ano na EsPCEx, os futuros oficiais deverão passar os quatro anos restantes da formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende – RJ.

Nesta trajetória, os grupos religiosos evangélico, espírita e católico se fazem presentes no cotidiano de diversos militares, promovendo o estudo do evangelho dentro dos quartéis brasileiros. Diante da nova realidade – marcada por um período de adaptação intenso e muitas vezes distante dos familiares – os alunos e cadetes do Exército encontram, na religião, uma forma de aprimorar a própria resiliência e se fortalecerem frente às dificuldades. Vale ressaltar que todas as participações nos grupos religiosos são feitas de forma voluntária pelos militares, seguindo o princípio da liberdade de culto.

“A religião traz certo conforto. O próprio indivíduo cria ou tem certa expectativa em relação a Deus, sela ela qual for, de ter uma paz, uma tranquilidade, um equilíbrio. O [aluno] vem de outra cidade, às vezes vem de outra realidade socioeconômica. A religião é um fator de manutenção da sua zona de conforto e da sua paz” afirma o sociólogo e professor da UERJ Claudio de Carvalho Silveira.

O primeiro contato com os grupos religiosos também acontece na Escola Preparatória – estão presentes a Cruzada dos Militares Espíritas (CME), a União Católica dos Militares (UCM) e o Núcleo dos Alunos Evangélicos (NAE). Segundo o Tenente Coronel Ubaldo Reis Junior, colaborador do grupo espírita desde 2007, toda a organização é feita de modo voluntário, entre os instrutores e alunos. Para ele, o estudo do Evangelho contribui positivamente para a formação do militar. “O estudo do Evangelho, de qualquer fonte que se ligue a Deus, é fundamental para que a pessoa não perca o rumo. É muito fácil dada a quantidade de atividades que tem aqui, o sujeito acreditar que a coisa não vai andar. Então ele tem que ter fé para seguir na carreira, porque tem muitas atividades aqui que deixam o sujeito sem chão, e a fé é fundamental para que este chão seja estabelecido rapidamente”, afirma.

Ainda de acordo com o sociólogo Claudio de Carvalho Silveira, a profissão militar é uma profissão que, em última instância, lida com a morte. “No linear desta profissão, a questão da religião é muito importante porque é a última possibilidade de você pensar alguma esperança da condição humana. É claro que existem militares que não tem religião nenhuma, e isso também é relevante para levar em consideração”, ressalta.

O aprendizado adquirido nos estudos vai além dos cultos – todo conhecimento é levado e aproveitado nos momentos mais difíceis. “Houve um episódio no ano de 2015, quando eles foram para a Operação Cadete e um deles levou o evangelho de bolso. Eles faziam aquele estudo na barraca, com uma lanterna de LED, e aquilo ali fez toda a diferença. Isso ajuda muita na aceitação de que as provas que são colocadas para serem vencidas e que elas fazem parte da aprendizagem” recorda Ubaldo.

Além das atividades promovidas dentro da comunidade militar, os grupos religiosos organizam ações cívico-sociais, possibilitando que o futuro combatente conheça instituições e ONGs que trabalham com questões sociais. “Uma das atividades que realizamos esse ano, por exemplo, foi a de receber nesta Escola aproximadamente 70 crianças carentes de até 16 anos com seus monitores oriundas de dois projetos sociais na cidade de Campinas. O planejamento da atividade, bem como a preocupação com a segurança e a montagem das oficinas ficaram todas a cargo dos alunos, uma experiência que eles retrataram como abençoada e inesquecível”, afirma o Tenente Thiago Souza Ferreira, orientador do Núcleo dos Alunos Evangélicos.

Na Academia Militar das Agulhas Negras, os estudos do Evangelho e as celebrações religiosas também são realizados. O Cadete Juan Carlo Assis Coelho, membro da Associação dos Cadetes Evangélicos, afirma que o engajamento religioso fez com que ele valorizasse diversos aspectos inerentes à vida militar. “As atividades fizeram com que eu valorizasse a comunhão entre amigos, a ter responsabilidade em diversas situações simples da vida, a ter equilíbrio emocional, empatia e sabedoria em lidar com as situações”, comenta.

“É possível ao aluno em adaptação enxergar na agremiação religiosa, a família eclesiástica que ele deixou na sua cidade” afirma o Cadete Lucas Henrique Feitosa de Mattos, Presidente da União Católica dos Militares do núcleo da AMAN.

As atividades religiosas não se limitam ao âmago da formação acadêmica – no Exército Brasileiro, existem os Capelães Militares, presentes em diversas organizações do país, prestando assistência espiritual, realizando celebrações de cultos, aconselhamento pastoral, entre outros serviços.

O Capelão Evangélico Emerson Couto Profírio, do 4º Batalhão de Infantaria de Selva, acredita que para prestar uma boa assistência religiosa, é preciso saber trabalhar com todos os credos e respeitá-los. Profírio relembra o momento mais marcante que vivenciou como Capelão do Exército. “Quem lida com gente sempre viverá momentos marcantes. Cada nova história é única. Cada sofrimento é tratado como algo especial. Cada vitória pessoal é celebrada como se fosse a minha própria vitória. Por ser a primeira Organização Militar na qual sirvo, ainda muito inexperiente quanto à vida na caserna, a gente chega meio sem jeito, mas o apoio do comando e de todos os militares do batalhão nos faz sentir realmente o que é camaradagem. Esta acolhida certamente se tornou um padrão que levarei pelo resto da minha carreira”, conclui.

Conheça o projeto fotográfico “Laços de Honra – O outro lado do Exército”

Durante toda minha vida enxerguei as Forças Armadas sob a perspectiva de um olhar muito distante. Sem família ou parentes militares, tudo que eu conhecia baseava-se nas coisas que eu lia na internet e via na TV. Nunca tinha tido uma oportunidade de conhecer uma escola militar ou um quartel de perto, até outubro de 2015, quando fiz o Estágio de Correspondente de Assuntos Militares (ECAM), promovido pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Este estágio de curta duração, voltado para jornalistas e civis, fez com que eu tivesse, aos 18 anos, a chance de conhecer, pela primeira vez, a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Era ali que se dava o início da formação do oficial combatente do Exército Brasileiro.

A experiência me marcou profundamente. O tempo passou, e com ele veio a ideia de fazer um projeto – de uma mulher civil para o mundo – para mostrar como era de fato a vida de um militar. Logo, com apoio de um instrutor que tinha me dado aulas no estágio, tive uma grande realização como fotógrafa documentarista: dei início ao meu primeiro projeto fotográfico chamado “Laços de Honra – O outro lado do Exército”, o qual retrata o cotidiano e trajetória do oficial combatente do Exército Brasileiro.

O projeto Laços de Honra acompanhará a rotina da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME) – escolas que fazem parte da formação do militar.

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Alunos em período de adaptação na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Neste período, os alunos usam o uniforme “cotonete”, identificado por uma camiseta branca e calça jeans.

Em fevereiro, comecei a fotografar o começo desta trajetória, na EsPCEx e na AMAN – desde o período de adaptação até a saída dos portões. Inúmeras atividades e momentos foram registrados, como os campos de longa duração, a presença dos esportes e até mesmo as situações mais corriqueiras, a exemplo das atividades físicas, da marcha para o “rancho” e das formaturas matinais. Tive que aprender a marchar, a suportar o frio e o calor, a ultrapassar diversas barreiras  – presenciei situações difíceis e alegres também.

Ao documentar uma história, nós, fotógrafos, não fazemos uma fotografia sozinho  – ainda mais quando falamos de retratos e dos registros da condição humana. A imagem, por sua vez, torna-se um presente. Só é possível registrar uma emoção quando o retratado a permite. Quando isso ocorre, é como se fosse uma dádiva para nós. Felizmente tenho registrado muitas emoções, vidas e momentos que serão lembrados para sempre.

Laços de Honra procura mostrar o espírito de corpo desenvolvido entre os militares – pois acima das diferenças, há um propósito que os mantém unidos  – principalmente durante o período de formação.

No primeiro ano de formação de um combatente, o aluno deve estudar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas – SP, onde serão instruídos com aulas teóricas e de instrução militar. A EsPCEx, assim como a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é uma instituição de ensino superior – ao concluírem, os cadetes se tornam bacharéis em Ciências Militares.

É na Escola Preparatória onde tudo começa – é lá que os futuros combatentes aprendem os primeiros hinos e a marchar. O primeiro ano letivo também é marcado por diversas datas importantes, a exemplo do Juramento à Bandeira e os exercícios de longa duração, realizados em campo de instrução.

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Cadetes do primeiro ano da AMAN no campo Boa Esperança.
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Alunos da EsPCEx em Exercício de Longa Duração, realizado em Campinas – SP.
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Alunos da EsPCEx em Exercício de Longa Duração, realizado em Campinas – SP.
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Alunos realizando a vigia noturna, no Exercício de Longa Duração.
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Juramento à Bandeira da Turma 150 anos da Tríplice Aliança, realizado em agosto de 2016.
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O Juramento à Bandeira é considerado uma das datas mais importantes do calendário da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Depois de concluir o primeiro ano em Campinas, os alunos ingressam como cadetes na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), localizada em Resende – RJ, onde passarão os quatros anos seguintes. A AMAN é considerada a maior academia militar da América Latina.

Academia Militar em Resende – RJ. Atrás da academia, é possível ver o Pico das Agulhas Negras.
Academia Militar das Agulhas Negras, localizada em Resende – RJ

 

Paula Mariane ©
Cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras marchando em direção ao “rancho”, nome dado ao refeitório dos militares.

Durante a formação na Academia Militar, os alunos poderão escolher as armas, o quadro ou o serviço que irão atuar pelo resto de suas vidas, a exemplo das armas de Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia e Comunicações, o Quadro de Material Bélico ou o Serviço de Intendência. Ao concluírem todos os anos da graduação, o cadete torna-se um Aspirante-a-Oficial, podendo chegar até o posto de General do Exército.

Neste ano, foi aplicado pela primeira vez o vestibular para as mulheres – foram mais de 7,7 mil inscrições para concorrer as 40 vagas destinadas ao público feminino. Elas ingressarão na EsPCEx no próximo ano e em 2021, veremos as primeiras oficiais combatentes do país.

O projeto “Laços de Honra – O outro lado do Exército” será lançado em forma de livro fotográfico, com previsão para o segundo semestre de 2018.

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Alunos na saída dos portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Nesta data, eles se despedem da escola, prontos para seguirem como cadetes na AMAN.