Relatos de uma longa patrulha | Conheça o terceiro estágio da Seção de Instrução Especial

Dai-me, Senhor meu Deus, o que Vos resta;
Aquilo que ninguém Vos pede.
Não Vos peço o repouso nem a tranquilidade,
Nem da alma nem do corpo.
[…]
Mas dai-me, também, a coragem
E a força e a fé.

(Trecho da Oração do Paraquedista)

Era a vez dos cadetes do terceiro ano da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) iniciarem mais um estágio da Seção de Instrução Especial (SIEsp). Enquanto os outros três estágios ocorrem em apenas um lugar, o Estágio de patrulhas de longo alcance com características especiais ocorre em diversas regiões. Na maior parte do tempo, ficamos na Represa do Funil, interior do Rio de Janeiro no entanto, outras instruções militares foram realizadas nas cidades de Queluz, Areias e São José do Barreiro, localizadas no Estado de São Paulo.

Seja na água, seja na terra, seja no céu, as instruções deste estágio são amplas e bem complexas. Com uma temperatura mínima de 8ºC graus e máxima de 33ºC, o frio e o calor estiveram presentes nesses dias. Em um cenário de guerra, os cadetes tiveram a oportunidade de comandar pelotões na execução de patrulhas, realizando captura de material, destruições e até emboscadas. Do bote ao helicóptero, todas as instruções contaram com uma variedade de meios terrestres, fluviais e aéreos.

Como nos outros estágios da SIEsp, os atributos físicos e afetivos são muito cobrados dos militares. Nos últimos dias, os cadetes realizam uma evasão no território inimigo – uma longa marcha de 40km é o cenário desta operação. Apesar do cansaço, é extremamente compensador o que sentimos após o término de todas as atividades.

Impressões sobre a SIEsp

Em todos os campos e operações que eu fotografo, tenho a oportunidade de ouvir muitas histórias – mas sempre é diferente quando os oficiais relembram da Seção de Instrução Especial. Os anos podem passar, mas os militares nunca se esquecem do que acontece aqui, e isso vale para os nomes dos instrutores também.

Desde a sua criação, em 1967, a SIEsp tem como objetivo desenvolver nos cadetes atributos como capacidade de decisão, resistência física, mental e psiquíca – características imprescindíveis ao líder militar. Para isso, todos os estágios buscam o máximo de realismo possível, aproximando-se do combate real.

  

 

   

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

www.paulamariane.com.br/blog

 

 

 

 

 

Conhecendo o sabor dos ventos | Estágio do Combatente de Montanha

Senhor!
Vós que sois onipotente
Concedei-nos no fragor da luta
A nós que vencemos nas pedras
A nós que conhecemos o sabor dos ventos
O destemor para combater
A Santa dignidade para perseverar
A força da coragem para sempre avançar
E a fé para tudo suportar
E dai- nos também, ó Senhor Deus
Quando a guerra nos for adversa
E quanto maior for a incerteza
A determinação de nunca recuar
E ante o inimigo jamais fracassar

MONTANHA!

(Oração do Combatente de Montanha)

Longe das operações em ambientes urbanos e das patrulhas ostensivas da última SIEsp, chegou a vez de enfrentar o estágio mais enigmático da Seção de Instrução Especial: o Estágio Básico do Combatente de Montanha. Não lidaríamos apenas com as nossas próprias limitações – mais do que nunca, era necessário respeitar a natureza e nunca duvidar de sua magnitude.

O estágio, no qual os cadetes do primeiro ano da AMAN são submetidos, é realizado no Parque Nacional de Itatiaia. Em seu interior, encontra-se um dos picos mais altos do país, o Pico das Agulhas Negras, com 2.790 metros de altitude, sendo este o ponto culminante do estado do Rio de Janeiro e o quinto ponto mais alto do Brasil. O maciço, por sua vez, recebeu este nome devido às canaletas escuras e verticais.

O fino manto de gelo que cobria boa parte da vegetação denunciava as condições climáticas que iríamos enfrentar durante a semana: temperaturas negativas que chegaram aos -7ºC e ventos superiores a 60 km/h. Não foi fácil. Muito além de nossos medos e incertezas, a natureza nos abrigaria e lembraríamos o tempo todo que fazemos parte dela. Lembraríamos também que não somos superiores a nenhuma outra espécie ou forma de vida existente nesta terra.

No frio extremo da montanha, o espírito de corpo tornou-se essencial. É impossível viver neste mundo sozinho.

Para frente e para o alto: 2.790 metros

Quinta-feira, 05h30 da manhã. Na reta final do estágio, após diversas instruções realizadas durante a semana, era a minha vez de escalar o Pico das Agulhas Negras com os irmãos da caserna. Confesso que tive medo e dificuldades, mas a minha persistência e a vontade de conhecer o pico que deu nome à Academia Militar era maior. Então a marcha começou.

O abrigo ficava cada vez mais distante e o sol ainda não tinha nascido. No frio e na escuridão passamos por aquelas trilhas que nos levariam até a base do pico. Após a chegada, nos preparamos para a subida. Conforme subíamos, o ar se tornava cada vez mais rarefeito. Em diversos momentos da escalada recordei de algumas situações que foram difíceis para mim: felizmente, eu havia vencido todos esses dias. Já parou para pensar que você passou por todos eles também? E assim sobrevivemos.

Depois de três horas, lá estávamos nós. Marcada por um vento extremamente forte e um frio intenso, a subida tinha valido a pena. Uma vez ou outra, o som dos ventos dividia espaço com a oração do combatente de montanha, cantada pelos cadetes. Estávamos (literalmente) nas nuvens.

Às vezes, a nossa alma precisa de lugares que o homem ainda não modificou.

Prontos para descer, tínhamos apenas uma certeza: como já dizia Francis Bacon, só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe.

 

 

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

www.paulamariane.com.br/blog

 

 

A última SIEsp: as múltiplas faces do Estágio de Operações contra Forças Irregulares

Na paz ou na guerra sempre há
Um comandos preparado para lutar!
Se a pátria lhe pedir, está pronto para partir
Não importa o lugar!
Na selva, na montanha ou no mar
Onde seja necessário atuar
Surge do céu seu braço forte
Se preciso enfrenta a morte
Sua estrela há de brilhar!

(Trecho da Canção dos Comandos)

Da montanha para a selva

Desde o primeiro ano da AMAN, os cadetes realizam estágios que têm por objetivo desenvolver habilidades e avaliar o desempenho dos futuros oficiais combatentes. Estas instruções, por sua vez, são ministradas pela Seção de Instrução Especial (SIEsp), a qual é composta por uma equipe apta para atuar nos mais variados ambientes de conflito, seja no frio das regiões montanhosas, seja no calor úmido da selva. As missões se assemelham ao combate real: ou seja, há um nível muito maior de dificuldade se comparado com as demais instruções militares.

Para os cadetes do primeiro ano, a Seção ministra o Estágio Básico do Combatente de Montanha; já os cadetes do segundo ano realizam o Estágio de Vida na Selva e Técnicas Especiais. Para o terceiro ano, a equipe realiza o Estágio de Patrulhas de Longo Alcance com Características Especiais; para o quarto ano, é ministrado o Estágio de Operações contra Forças Irregulares.

A minha visão

O quarto ano da Academia Militar das Agulhas Negras chega e os cadetes estão a um passo de se tornarem aspirantes. Aquele futuro, outrora tão distante, está próximo de se concretizar – no entanto, é preciso trilhar este caminho sem pular nenhuma etapa. Ainda é necessário passar por provações e desafios: a última SIEsp vai começar. Preparo a minha câmera; o colete, o capacete e o coturno me aguardam – e eu, como uma fotógrafa fiel, estou disposta a enfrentar esta última etapa com os irmãos que a caserna me deu. Desta vez, a ansiedade não é a minha única companheira.

Você tem certeza que está fotografando o melhor lado do Exército? ” – Pergunta um cadete. Reflito e em seguida respondo: sim.

Não são momentos fáceis. No entanto, acredito fortemente que a escassez e a dificuldade forjam as pessoas, e, com isso, elas tornam-se mais fortes. Geralmente quem está do outro lado desconhece o que aquela pessoa precisou enfrentar para estar ali, naquela formatura, com o uniforme de gala azul ferrete*. Quando o estagiário me questionou a respeito do meu trabalho, lembrei da minha própria trajetória: eu nunca tive o melhor equipamento. Não tive acesso a cursos pagos de fotografia. Mas estudei e fiz do meu simples equipamento a melhor câmera do mundo – através dos meus olhos, busquei captar a essência de todas as situações que presenciei. Da mesma forma, por trás do uniforme de gala, há uma pessoa que passou dias sem dormir direito, carregando mochila pesada e suportando muita pressão psicológica. Só quem passou sabe como é.

Fotografar a SIEsp, portanto, é uma honra para mim. Estou sim, fotografando o melhor lado de cada um, pois é aqui que nós somos forjados: na dificuldade, nos extremos e na escassez. Apesar de todas essas dificuldades, o companheirismo e o espírito de corpo é o que nos mantém dispostos a seguir em frente.

E assim nós sobrevivemos cada dia: caminhando um passo de cada vez.

*Traje utilizado pelos cadetes em ocasiões especiais.

O planejamento e a preparação dos meios para ordem à patrulha

“A guerra é de importância decisiva para o Estado. […] Ela é determinada por cinco fatores, os quais nós temos de tomar em consideração em nossas reflexões se quisermos avaliar corretamente a situação no campo de batalha: Direito moral, céu, terra, condução e método. O Direito moral leva os soldados a seguir incondicionalmente seus superiores e nisto não temer qualquer perigo. Céu significa dia e noite, calor e frio, tempo e estação. Terra significa proximidade e distância, perigo e segurança, estreiteza e amplidão, vida e morte. Condução significa sabedoria, sinceridade, benquerência, coragem e rigor. Método abrange a estruturação hierárquica do exército, o sustento das linhas de reforço e o controle dos gastos militares.”

(Trecho do livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu)

Antes de partirem para a missão, todo planejamento é necessário para que as ações sejam executadas com êxito. Na foto, estagiários se preparam na Base Saci, em Quatis, interior do Estado do Rio de Janeiro.

Operação de Busca e Apreensão

O estágio começa. Há muito o que fazer. Neste momento, nos dirigimos ao local da operação.
Curiosidade: um senhor para na linha do trem para ver o cadete passar. O movimento da tropa desperta a atenção dos moradores locais, que olham admirados para os futuros oficiais combatentes.
Os estagiários chegam no ponto de ação. A Operação de Busca e Apreensão é uma das instruções militares realizadas pelos cadetes nesta SIEsp.
A Operação de Busca e Apreensão é finalizada com sucesso. Todas as atividades feitas na SIEsp se assemelham ao combate real.

Patrulhamento Ostensivo

“O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo.”

(Trecho do livro “Guerra e Paz”, de Leon Tolstoi)

Garoto anda tranquilamente de bicicleta, enquanto os militares fazem o patrulhamento ostensivo, em Quatis – RJ.

Patrulhamento Motorizado e Escolta de Comboio

Antes de partir para o deslocamento motorizado, a tropa é inspecionada. Desta vez, a atividade será noturna.

Começa a esfriar. Ainda estamos no começo da semana.

Estagiário durante a escolta de comboio, em uma noite fria na cidade de Quatis. A missão está apenas começando.

Um dia na base Saci

“Segundo a compreensão dos antigos, um combatente sagaz alcança suas vitórias com facilidade. Por conseguinte, suas vitórias não lhe trazem a fama nem de sabedoria nem de coragem. Ele ganha suas batalhas evitando erros. Uma vez que ele evite erros, a vitória lhe está assegurada, pois o inimigo já está de antemão derrotado.”

(Trecho do livro “A Arte da Guerra, de Sun Tzu)

Um novo dia começa, e as atividades se iniciam na parte da manhã.
Base Saci, localizada em Quatis.
Após a realização do planejamento da missão, os estagiários se deslocam até o ponto que deverão ficar durante o dia.

Na foto, cadete se prepara para atuar na segurança da Base Saci. A MAG é uma metralhadora de origem belga, com alcance útil de 1.800 metros. Utilizada pelas Forças Armadas brasileiras, é capaz de realizar até mil disparos por minuto.

Estagiários na segurança da Base Saci, durante o Estágio de Operações contra Forças Irregulares.

O espírito de corpo militar é forjado nestes momentos. Longe da família e dos amigos, a companhia que temos é dos nossos irmãos de farda.

Um imprevisto acontece. Os estagiários se reúnem para fortalecer a segurança da Base Saci.

São nos momentos de dificuldades que nos fortalecemos. Esse é o aprendizado que eu e os irmãos da caserna levaremos para o resto de nossas vidas. E com esperança, a última luz da SIEsp renova as nossas energias.

 

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

www.paulamariane.com.br/blog

Uma decisão para a vida: a escolha das armas

“Cadete do Brasil
Conduz o teu fuzil!
Ao lado do canhão,
A par da Engenharia,
Da Intendência,
Da Cavalaria,
Material Bélico e Comunicações…”

(trecho da canção da Academia Militar das Agulhas Negras)

 

O ano letivo da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) é marcado por um evento decisivo na vida de todos os oficiais combatentes. Os cadetes do segundo ano da academia reúnem-se no auditório para realizarem a escolha da arma, quadro ou serviço que atuarão pelo resto de suas vidas –  entre as opções, estão as armas de infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia, comunicações, o serviço de intendência e o quadro de material bélico.

Este momento, por sua vez, define inúmeros aspectos inerentes à vida do militar – desde as especializações e cursos que poderão ser realizados até os quartéis que o futuro oficial poderá servir no decorrer da sua profissão. Nos anos seguintes, os cadetes continuarão a formação nos respectivos cursos, moldando-se através dos valores cultivados por cada arma.

O que motivou o cadete Gabriel Aragão de Souza Castro a escolher o serviço de intendência foi o espírito do curso. “O companheirismo entre os companheiros de pelotão sem dúvida  é o maior laço dentro da intendência”, comenta. Para o cadete Bruno de Araújo Cavalcante, a infantaria sempre foi uma referência e objetivo de vida. “Escolhi a Infantaria por afinidade profissional, pela história da arma, e por tudo que eu imaginei antes de entrar pro Exército se resume na Infantaria”, ressalta.

No mês de fevereiro, 451 cadetes do segundo ano da AMAN fizeram a sua escolha – uma decisão que levarão para sempre.

E assim eles foram recepcionados:

Filhas de Quitéria: as primeiras mulheres combatentes do Exército Brasileiro

Em 1822, uma mulher lutava pela manutenção da independência do Brasil. Maria Quitéria de Jesus Medeiros, a primeira brasileira a integrar uma unidade militar do país – disfarçada de homem e conhecida como soldado Medeiros – já mostrava que as mulheres poderiam atuar na frente de batalha com muita audácia e competência. Após 195 anos da sua integração, as mulheres finalmente podem ser admitidas na linha de ensino militar bélica.

Pela primeira vez, as futuras oficiais combatentes atravessaram os portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), no dia 18 de fevereiro. Das 440 vagas disponíveis no concurso de admissão, 40 foram destinadas ao segmento feminino.

Entre as 29.771 pessoas que se inscreveram no maior concurso da escola preparatória, 7.707 eram mulheres. Para elas, a concorrência foi mais acirrada: 193 candidatos por vaga. De acordo com 0 chefe da Seção de Concurso Tenente Coronel Roberto Paulo Moreira Nunes, a admissão de mulheres e a exposição da mídia contribuíram para o aumento das inscrições. “Houve um interesse maior na carreira e consequentemente o aumento do número de inscritos”, ressalta.

De acordo com o professor de história Coronel Orlando Roque de Simone, este momento histórico faz parte de uma evolução natural que está ocorrendo na sociedade brasileira. “Durante muito tempo as mulheres não tiveram o direito a voto no Brasil, durante muito tempo as mulheres que trabalhavam fora de casa eram mal vistas, tinha um preconceito. De uns tempos pra cá, a mulher vem ganhando bastante espaço dentro da sociedade brasileira, e assim está ocorrendo no Exército Brasileiro”, comenta.

Comandante da EsPCEx Coronel Dutra e a aluna mais nova da turma, Emily Braz, 16, abrem os portões da escola preparatória durante a cerimônia de entrada dos novos alunos
Alunas e alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército durante a cerimônia de entrada, realizada no dia 18 de fevereiro, em Campinas – São Paulo

Para o comandante da EsPCEx Coronel Gustavo Henrique Dutra de Menezes, comandar a escola neste momento inédito da história do Brasil é muito gratificante. “Quando soube que ano passado seria o ano de concurso da admissão, considerei isso uma oportunidade maravilhosa, um desafio fantástico e encarei como um presente estar aqui neste momento tão importante para a escola e para o Exército”.

Dentro da escola, inúmeras adaptações foram feitas antes mesmo das primeiras mulheres entrarem na instituição – desde a escolha das instrutoras até mudanças na infraestrutura. “A EsPCEx se preparou com muita atenção e muito carinho para receber nossas alunas. Essa preparação não envolve só a parte de infraestrutura, não é só obra. Tem a questão do regulamento e do comportamento. Nós tivemos que adequar algumas normas da escola e tivemos que preparar intelectual e psicologicamente os militares do corpo permanente”, afirma o comandante.

Elas por elas: conheça as instrutoras da primeira turma de mulheres da EsPCEx

Tenente Paola de Carvalho Andrade

Nos bastidores do Exército Brasileiro – enquanto ocorriam diversas adaptações para receber a primeira turma do segmento feminino – grandes mudanças e surpresas ocorreram nas vidas de outras mulheres, militares formadas na Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx) e que trabalhavam em suas áreas específicas. Sem formação na linha bélica, este foi o destino da jornalista Tenente Paola de Carvalho Andrade e da enfermeira Tenente Thaynan Miranda Amorim, que se tornaram instrutoras da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

O curso de formação de oficiais da linha de ensino militar bélica realizado em cinco anos – 1 ano na escola preparatória e os quatros anos seguintes na Academia Militar das Agulhas Negras – prepara o indivíduo para comandar e instruir pelotões e companhias. No entanto, com apenas nove meses de formação na escola complementar, as tenentes abraçaram a causa e foram à EsPCEx, cientes dos inúmeros desafios que iriam enfrentar, com o objetivo de serem as instrutoras da primeira turma de mulheres.

Quando soube que tinha sido nomeada, Paola estava no Haiti, trabalhando em uma missão de paz. “Eu estava no Haiti quando o comandante da guarda me chamou e me contou que eu tinha sido nomeada. Para mim foi uma surpresa, porque eu não tinha nenhum plano, eu não sabia”, recorda.

A surpresa também tomou conta de Thaynan, que logo se empolgou com a ideia de ser instrutora. “Eu me formei em 2014 e em 2015 eu estava no Hospital Militar de Campo Grande. Em novembro de 2015, eu recebi a notícia de forma bem inesperada. Eu estava assumindo o plantão e o meu ex-comandante de companhia estava me parabenizando no facebook pela minha nomeação. A princípio eu me assustei, de repente minha vida mudou da água para o vinho. Eu ia sair da minha função para exercer uma função diferente, e teria que começar do zero”, comenta.

As tenentes também passaram por treinamentos e aprenderam como se dá a formação na linha combatente. Instruídas pelos próprios comandantes de companhia e de pelotão, as oficiais do quadro complementar aos poucos foram construindo a própria identidade militar.

Para Paola, elas também foram alunas neste processo de adaptação. “Algumas coisas nós já tínhamos feito e refizemos, mas não foi um ano fácil. Nós dizemos que também foi um ano de aluna. Eu estava acostumada com a vida de jornalista, hoje tenho uma vida de militar. Eu tenho horários diferenciados iguais a uma tropa de escola – isso é mais cansativo. Me deram missões que eu achava que não teria que passar por elas, como marchar, carregar peso, carregar fuzil, porque eles queriam ver se a gente conseguia – testar na gente para ver o que as alunas conseguiriam”, comenta.

“No começo tentei observar muito para poder criar esta minha identidade como instrutora. A rotina é bem pesada, porque ela tira você da zona de conforto e coloca numa zona quente, para poder evoluir essa pessoa o mais rápido possível”, diz Thaynan, realizada com a missão que recebeu.

Tenente Thaynan Miranda Amorim

Emocionada, a enfermeira se sente grata por contribuir com a formação dos futuros oficiais do Exército Brasileiro. “Hoje eu sei ser mais militar do que enfermeira. É muito bom cuidar das pessoas, mas eu consigo aplicar um pouco disso aqui. O mais legal dessa profissão é conseguir ver a evolução que eles têm ao longo do ano. Eles chegam completamente perdidos, nunca saíram de casa e talvez nunca tenham lavado uma roupa. Eles entram meninos e saem homens, porque a evolução é muito grande. Acompanhar o amadurecimento e a evolução deles, e sentir que de alguma forma você faz parte disso é muito gratificante, é um sentimento inexplicável. Tanto que na formatura no final de 2016, com a saída da minha primeira turma, foi difícil conter a emoção porque a gente ensina, mas também aprende muito”.

A importância do exemplo e de fazer um trabalho em que as alunas realmente acreditem é fundamental para Thaynan. “Elas precisam ter esse discernimento, saber que o preço do pioneirismo é esse, são elas que vão ter que ganhar espaço para as outras conseguirem chegar, até que todo mundo esteja devidamente à vontade dentro da posição que ocupa”.

Para o futuro, as expectativas são muito positivas. Transformadas e amadurecidas, as tenentes enxergam este momento como uma grande conquista para as mulheres – cientes de que a união entre elas pode fazer a força. “As alunas tem ciência disso. Uma das alunas que entrou agora disse que tem uma obrigação de fazer o curso e de deixar a porta aberta para as seguintes, pois essa é uma oportunidade que muitas queriam ter e não tiveram. A mulher no Exército é uma coisa que não é comum, e o Exército está aprendendo a lidar com isso. Têm mulheres no Exército, eu estou aqui e tem outras colegas, mas na função que era especifica do homem não tinha, então é uma adaptação a um meio que é totalmente masculino. Certamente a gente vai mudar muita coisa só com a nossa presença e isso causa certo incomodo. Para você mudar uma cultura causa um certo incomodo, mas o que vemos aqui é a boa vontade, todo mundo está na boa vontade de recebê-las e de formá-las”, reforça Paola.

Apesar de estarem em um ambiente majoritariamente masculino, Thaynan acredita que a entrada das mulheres fará com que elas ganhem mais espaço no Exército Brasileiro. “Eu gostaria de fazer isso por mais tempo e de ver várias turmas se formando. Eu sei que daqui pra frente, até o nível de profissionalismo e intelectual tende a subir, porque elas vão fazer isso. Elas entendem do que são capazes e continuam brigando por um espaço. Eu sei que vamos chegar muito longe – talvez eu não esteja viva para ver, mas uma dessas aqui talvez seja general no futuro, será aquela que pode mudar alguma coisa. Essa experiência foi algo que me modificou muito”.

Presente em todas as áreas de formação do Exército, as mulheres agora poderão alcançar o generalato – e daqui um tempo, as primeiras oficiais combatentes comandarão os diversos batalhões do Brasil.

Alunas comemorando durante a cerimônia de entrada dos novos alunos da Escola Preparatória, realizada no dia 18 de fevereiro

A presença dos grupos religiosos no Exército Brasileiro

A trajetória de formação do oficial combatente do Exército Brasileiro é longa e cheia de desafios. No primeiro ano de formação, os alunos estudam na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, localizada em Campinas, interior de São Paulo. Após concluírem o primeiro ano na EsPCEx, os futuros oficiais deverão passar os quatro anos restantes da formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende – RJ.

Nesta trajetória, os grupos religiosos evangélico, espírita e católico se fazem presentes no cotidiano de diversos militares, promovendo o estudo do evangelho dentro dos quartéis brasileiros. Diante da nova realidade – marcada por um período de adaptação intenso e muitas vezes distante dos familiares – os alunos e cadetes do Exército encontram, na religião, uma forma de aprimorar a própria resiliência e se fortalecerem frente às dificuldades. Vale ressaltar que todas as participações nos grupos religiosos são feitas de forma voluntária pelos militares, seguindo o princípio da liberdade de culto.

“A religião traz certo conforto. O próprio indivíduo cria ou tem certa expectativa em relação a Deus, sela ela qual for, de ter uma paz, uma tranquilidade, um equilíbrio. O [aluno] vem de outra cidade, às vezes vem de outra realidade socioeconômica. A religião é um fator de manutenção da sua zona de conforto e da sua paz” afirma o sociólogo e professor da UERJ Claudio de Carvalho Silveira.

O primeiro contato com os grupos religiosos também acontece na Escola Preparatória – estão presentes a Cruzada dos Militares Espíritas (CME), a União Católica dos Militares (UCM) e o Núcleo dos Alunos Evangélicos (NAE). Segundo o Tenente Coronel Ubaldo Reis Junior, colaborador do grupo espírita desde 2007, toda a organização é feita de modo voluntário, entre os instrutores e alunos. Para ele, o estudo do Evangelho contribui positivamente para a formação do militar. “O estudo do Evangelho, de qualquer fonte que se ligue a Deus, é fundamental para que a pessoa não perca o rumo. É muito fácil dada a quantidade de atividades que tem aqui, o sujeito acreditar que a coisa não vai andar. Então ele tem que ter fé para seguir na carreira, porque tem muitas atividades aqui que deixam o sujeito sem chão, e a fé é fundamental para que este chão seja estabelecido rapidamente”, afirma.

Ainda de acordo com o sociólogo Claudio de Carvalho Silveira, a profissão militar é uma profissão que, em última instância, lida com a morte. “No linear desta profissão, a questão da religião é muito importante porque é a última possibilidade de você pensar alguma esperança da condição humana. É claro que existem militares que não tem religião nenhuma, e isso também é relevante para levar em consideração”, ressalta.

O aprendizado adquirido nos estudos vai além dos cultos – todo conhecimento é levado e aproveitado nos momentos mais difíceis. “Houve um episódio no ano de 2015, quando eles foram para a Operação Cadete e um deles levou o evangelho de bolso. Eles faziam aquele estudo na barraca, com uma lanterna de LED, e aquilo ali fez toda a diferença. Isso ajuda muita na aceitação de que as provas que são colocadas para serem vencidas e que elas fazem parte da aprendizagem” recorda Ubaldo.

Além das atividades promovidas dentro da comunidade militar, os grupos religiosos organizam ações cívico-sociais, possibilitando que o futuro combatente conheça instituições e ONGs que trabalham com questões sociais. “Uma das atividades que realizamos esse ano, por exemplo, foi a de receber nesta Escola aproximadamente 70 crianças carentes de até 16 anos com seus monitores oriundas de dois projetos sociais na cidade de Campinas. O planejamento da atividade, bem como a preocupação com a segurança e a montagem das oficinas ficaram todas a cargo dos alunos, uma experiência que eles retrataram como abençoada e inesquecível”, afirma o Tenente Thiago Souza Ferreira, orientador do Núcleo dos Alunos Evangélicos.

Na Academia Militar das Agulhas Negras, os estudos do Evangelho e as celebrações religiosas também são realizados. O Cadete Juan Carlo Assis Coelho, membro da Associação dos Cadetes Evangélicos, afirma que o engajamento religioso fez com que ele valorizasse diversos aspectos inerentes à vida militar. “As atividades fizeram com que eu valorizasse a comunhão entre amigos, a ter responsabilidade em diversas situações simples da vida, a ter equilíbrio emocional, empatia e sabedoria em lidar com as situações”, comenta.

“É possível ao aluno em adaptação enxergar na agremiação religiosa, a família eclesiástica que ele deixou na sua cidade” afirma o Cadete Lucas Henrique Feitosa de Mattos, Presidente da União Católica dos Militares do núcleo da AMAN.

As atividades religiosas não se limitam ao âmago da formação acadêmica – no Exército Brasileiro, existem os Capelães Militares, presentes em diversas organizações do país, prestando assistência espiritual, realizando celebrações de cultos, aconselhamento pastoral, entre outros serviços.

O Capelão Evangélico Emerson Couto Profírio, do 4º Batalhão de Infantaria de Selva, acredita que para prestar uma boa assistência religiosa, é preciso saber trabalhar com todos os credos e respeitá-los. Profírio relembra o momento mais marcante que vivenciou como Capelão do Exército. “Quem lida com gente sempre viverá momentos marcantes. Cada nova história é única. Cada sofrimento é tratado como algo especial. Cada vitória pessoal é celebrada como se fosse a minha própria vitória. Por ser a primeira Organização Militar na qual sirvo, ainda muito inexperiente quanto à vida na caserna, a gente chega meio sem jeito, mas o apoio do comando e de todos os militares do batalhão nos faz sentir realmente o que é camaradagem. Esta acolhida certamente se tornou um padrão que levarei pelo resto da minha carreira”, conclui.

Conheça o projeto fotográfico “Laços de Honra – O outro lado do Exército”

Durante toda minha vida enxerguei as Forças Armadas sob a perspectiva de um olhar muito distante. Sem família ou parentes militares, tudo que eu conhecia baseava-se nas coisas que eu lia na internet e via na TV. Nunca tinha tido uma oportunidade de conhecer uma escola militar ou um quartel de perto, até outubro de 2015, quando fiz o Estágio de Correspondente de Assuntos Militares (ECAM), promovido pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Este estágio de curta duração, voltado para jornalistas e civis, fez com que eu tivesse, aos 18 anos, a chance de conhecer, pela primeira vez, a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). Era ali que se dava o início da formação do oficial combatente do Exército Brasileiro.

A experiência me marcou profundamente. O tempo passou, e com ele veio a ideia de fazer um projeto – de uma mulher civil para o mundo – para mostrar como era de fato a vida de um militar. Logo, com apoio de um instrutor que tinha me dado aulas no estágio, tive uma grande realização como fotógrafa documentarista: dei início ao meu primeiro projeto fotográfico chamado “Laços de Honra – O outro lado do Exército”, o qual retrata o cotidiano e trajetória do oficial combatente do Exército Brasileiro.

O projeto Laços de Honra acompanhará a rotina da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME) – escolas que fazem parte da formação do militar.

Paula Mariane ©
Alunos em período de adaptação na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Neste período, os alunos usam o uniforme “cotonete”, identificado por uma camiseta branca e calça jeans.

Em fevereiro, comecei a fotografar o começo desta trajetória, na EsPCEx e na AMAN – desde o período de adaptação até a saída dos portões. Inúmeras atividades e momentos foram registrados, como os campos de longa duração, a presença dos esportes e até mesmo as situações mais corriqueiras, a exemplo das atividades físicas, da marcha para o “rancho” e das formaturas matinais. Tive que aprender a marchar, a suportar o frio e o calor, a ultrapassar diversas barreiras  – presenciei situações difíceis e alegres também.

Ao documentar uma história, nós, fotógrafos, não fazemos uma fotografia sozinho  – ainda mais quando falamos de retratos e dos registros da condição humana. A imagem, por sua vez, torna-se um presente. Só é possível registrar uma emoção quando o retratado a permite. Quando isso ocorre, é como se fosse uma dádiva para nós. Felizmente tenho registrado muitas emoções, vidas e momentos que serão lembrados para sempre.

Laços de Honra procura mostrar o espírito de corpo desenvolvido entre os militares – pois acima das diferenças, há um propósito que os mantém unidos  – principalmente durante o período de formação.

No primeiro ano de formação de um combatente, o aluno deve estudar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas – SP, onde serão instruídos com aulas teóricas e de instrução militar. A EsPCEx, assim como a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é uma instituição de ensino superior – ao concluírem, os cadetes se tornam bacharéis em Ciências Militares.

É na Escola Preparatória onde tudo começa – é lá que os futuros combatentes aprendem os primeiros hinos e a marchar. O primeiro ano letivo também é marcado por diversas datas importantes, a exemplo do Juramento à Bandeira e os exercícios de longa duração, realizados em campo de instrução.

aman-paula-mariane-11-min
Cadetes do primeiro ano da AMAN no campo Boa Esperança.
Paula Mariane ©
Alunos da EsPCEx em Exercício de Longa Duração, realizado em Campinas – SP.
Paula Mariane ©
Alunos da EsPCEx em Exercício de Longa Duração, realizado em Campinas – SP.
Paula Mariane ©
Alunos realizando a vigia noturna, no Exercício de Longa Duração.
whatsapp-image-2016-08-18-at-21-57-25-3
Juramento à Bandeira da Turma 150 anos da Tríplice Aliança, realizado em agosto de 2016.
whatsapp-image-2016-08-18-at-21-57-25-2
O Juramento à Bandeira é considerado uma das datas mais importantes do calendário da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Depois de concluir o primeiro ano em Campinas, os alunos ingressam como cadetes na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), localizada em Resende – RJ, onde passarão os quatros anos seguintes. A AMAN é considerada a maior academia militar da América Latina.

Academia Militar em Resende – RJ. Atrás da academia, é possível ver o Pico das Agulhas Negras.
Academia Militar das Agulhas Negras, localizada em Resende – RJ

 

Paula Mariane ©
Cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras marchando em direção ao “rancho”, nome dado ao refeitório dos militares.

Durante a formação na Academia Militar, os alunos poderão escolher as armas, o quadro ou o serviço que irão atuar pelo resto de suas vidas, a exemplo das armas de Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia e Comunicações, o Quadro de Material Bélico ou o Serviço de Intendência. Ao concluírem todos os anos da graduação, o cadete torna-se um Aspirante-a-Oficial, podendo chegar até o posto de General do Exército.

Neste ano, foi aplicado pela primeira vez o vestibular para as mulheres – foram mais de 7,7 mil inscrições para concorrer as 40 vagas destinadas ao público feminino. Elas ingressarão na EsPCEx no próximo ano e em 2021, veremos as primeiras oficiais combatentes do país.

O projeto “Laços de Honra – O outro lado do Exército” será lançado em forma de livro fotográfico, com previsão para o segundo semestre de 2018.

lacosdehonra-11-de-14
Alunos na saída dos portões da Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Nesta data, eles se despedem da escola, prontos para seguirem como cadetes na AMAN.

 

Mãos que coletam: um ensaio sobre a coleta seletiva

Segundo a pesquisa Ciclosoft, realizada pela organização sem fins lucrativos Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem), o serviço de coleta seletiva está presente em apenas 18% do total das cidades brasileiras, ou seja, apenas 1055 municípios do país oferecem este tipo de serviço. Em contraponto, o país produz 260 mil toneladas de resíduos por dia, e só uma pequena parte dessa quantia é reciclada e reutilizada. Em relação à população, apenas 15% (31 milhões) tem acesso a programas de coleta seletiva.

Entre as cidades que realizam e oferecem serviços de reciclagem, 54% realizam a coleta através de cooperativas. As cooperativas, por sua vez, podem ser apoiadas pela prefeitura – estendendo o apoio aos gastos de manutenção, de água, de eletricidade e de transporte, bem como no investimento de programas de educação ambiental. 

Os impactos da coleta seletiva vão além da área ambiental. Muitas pessoas encontram na reciclagem uma forma de trabalho e geração de renda, envolvendo desde os catadores de rua até as cooperativas. Antes, o que era considerado lixo, é visto agora como um material pronto para ser descoberto de inúmeras formas. Surge, então, a oportunidade para recriar, reutilizar e diminuir os danos ambientais. 

Em 2001, na cidade de Votorantim-SP, surgiu a Cooperativa de Reciclagem Coopervot, criada através de uma parceria entre o Centro de Estudos e Apoio ao Desenvolvimento, Emprego e Cidadania (CEADEC) e a Prefeitura. Questões como melhorar a qualidade de vida dos catadores de reciclagem e aumentar a geração de renda na comunidade tiveram um papel decisivo na promoção de uma série de discussões sobre o trabalho da coleta seletiva na região. 

Edson Locatelli, um dos fundadores da Coopervot que atualmente trabalha como voluntário,  acredita que o apoio da sociedade é fundamental. “Trinta e cinco (35) colaboradores trabalham na cooperativa. A quantidade de lixo gerada em Votorantim é de 100 toneladas por dia, no entanto, a cooperativa coleta 150 toneladas por mês, representando 10% de todo material [reciclável]”, afirma. Apesar dos grandes esforços da cooperativa e de todos os funcionários, é necessário que haja o reconhecimento da importância da presença da coleta seletiva por parte da comunidade, afim de que os resultados sejam mais eficientes.

O colaborador ainda ressalta a falta de incentivo do governo municipal. “O que falta são políticas públicas voltadas para a questão da coleta seletiva e dos catadores, porque é um serviço extremamente importante, pois diminui a quantidade de lixões e ressalta a importância dos catadores. O impacto positivo é que [o material] deixa de ir para o aterro sanitário, que não é uma forma de armazenamento adequada para o material reciclável.”

O fato de que 85% da população brasileira ainda não tem acesso aos serviços de reciclagem e coleta seletiva, essencial para a preservação do meio ambiente e para a economia local, é suficiente para perceber que há muito que fazer, como reconhecer a importância de reciclar, incentivar a separação de materiais dentro das casas, difundir ações nas escolas e ampliar programas de educação ambiental.

coletiva seletiva web (2 de 22)Colaboradores trabalhando no processo de separação de materiais, na sede da Cooperativa de Reciclagem Votorantim.

coletiva seletiva web (3 de 22)Os cães de guarda acompanham o trabalho dos catadores, durante o processo de separação dos materiais. Votorantim, São Paulo, Brasil. 

coletiva seletiva web (4 de 22) coletiva seletiva web (5 de 22)coletiva seletiva web (6 de 22)coletiva seletiva web (7 de 22) coletiva seletiva web (8 de 22)coletiva seletiva web (9 de 22) coletiva seletiva web (10 de 22)coletiva seletiva web (12 de 22) coletiva seletiva web (13 de 22) coletiva seletiva web (14 de 22)Apesar do trabalho árduo, surgem momentos descontraídos entre as colaboradoras. 

coletiva seletiva web (15 de 22) coletiva seletiva web (16 de 22)

coletiva seletiva web (17 de 22)coletiva seletiva web (18 de 22) coletiva seletiva web (19 de 22)A questão de melhorar a condição de trabalho dos catadores foi abordada durante a criação da cooperativa. O trabalho é intenso e gera grandes impactos na comunidade local.

coletiva seletiva web (20 de 22) coletiva seletiva web (21 de 22)
Na foto acima, mulher separa os materiais que serão reciclados. A maioria dos trabalhos são feitos manualmente.

coletiva seletiva web (22 de 22)

 

 

 

 

Escola da Família e uma nova abordagem de educação

blog-2

O Programa Escola da Família, criado em 2003 pela Secretaria de Estado da Educação do Governo de São Paulo, propõe a abertura das escolas da rede estadual aos finais de semana, com o objetivo de contribuir com a inclusão social e aumentar a presença dos jovens e familiares dentro da escola. A organização conta com profissionais da educação, voluntários e universitários, os quais planejam as atividades dentro de quatro eixos: esporte, cultura, saúde e trabalho.

Aparentemente algo simples, porém significativo, a abertura das escolas aos sábados e aos domingos representa e carrega em si algo muito mais profundo e ideológico – este seria, então, o outro lado do programa. São 16 horas dedicadas por professores e voluntários, com a grande esperança de que os jovens possam ter uma maior perspectiva do espaço escolar – e mais além, enxergam ali oportunidades de reinventar um espaço que é considerado muitas vezes alheio à comunidade.

blog-8

Às nove horas da manhã, as portas da Escola Estadual Pedro Augusto Rangel, localizada em Votorantim-SP, são abertas. Os jovens e as crianças começam a ocupar o pátio e a escolherem os jogos e as atividades. No meio delas, está a vice-diretora Suely Natalina Bueno da Silva, uma das profissionais que dedicam o final de semana para que os alunos tenham um maior acesso à educação.

Com um brilho nos olhos e um cansaço aparente, vindo de uma luta de vários anos para a melhoria do ensino na região, Suely enxerga nas parcerias e no voluntariado uma forma de abrir oportunidades para quem participa da Escola da Família. “Com mais atividades e oficinas profissionalizantes, a geração de renda na comunidade aumenta”, comenta. A falta de voluntários faz com que o número de atividades diminua, deixando a desejar a variedade de opções disponíveis dentro do ambiente escolar.

Apesar das dificuldades, a educadora universitária voluntária Thaina Ignácio acredita no potencial e nos benefícios do programa, “eu acho o projeto uma coisa muito boa. Quando se fala de educação, não se pode pensar em gastos, temos que pensar em investimentos. Acho que também parte da gente a mudança social, é preciso ter uma boa comunicação com as crianças.”

blog-1

Voluntária aos domingos, Thaina foi contemplada com o Programa Bolsa Universidade, na qual o estudante recebe uma bolsa integral do curso de ensino superior, e em contrapartida, trabalha como educador na Escola da Família nos finais de semana. Para a estudante de pedagogia, a entrada na Universidade é uma conquista, e se espelha nisso para motivar os outros participantes. “Todos os domingos ali são momentos de aprendizado, e mesmo com [as dificuldades encontradas] esse sistema educacional, que vai se arrastar por mais um longo período, eu acredito nessas crianças. Sei que eu, como uma futura professora, assim como outros colegas meus, temos a função de sermos seres transformadores na vida de crianças e adolescentes. Podemos apresentar algo novo e fazer com que elas acreditem nelas mesmas. Nós, que sempre estudamos na escola pública, somos heróis por vencermos, porque o fato de estarmos estudando em uma universidade é um grande avanço também.”

blog-13 blog-14 blog-15

A voluntária Isadora Bril Biffi dá aulas de inglês na E. E. Jornalista Gavino Virdes, na cidade de Guatapará-SP. A estudante decidiu entrar no P.E.F. para ajudar pessoas que não tinham oportunidade e condições de pagar aulas particulares. “Decidi entrar em contato com a coordenadora do programa para levar adiante o projeto. [A diretora] me explicou como funcionava e que não seria fácil.”

Os “alunos-problemas”, que são conhecidos por terem uma relação conflituosa dentro da sala de aula, apresentam-se ativos e com uma liderança nata nas atividades da Escola da Família. Esse tipo de situação traz à tona muitas outras questões sobre como o nosso sistema educacional abrange e consegue trabalhar com as habilidades e competência dos alunos, de modo que eles desenvolvam plenamente e sejam capacitados – isso volta a implicar na questão do número de voluntários presentes na unidade escolar.  “Por a escola ser aberta a todos, tem um fluxo grande de todo tipo de público, e duas pessoas tomando conta de tudo é muito pouco”, afirma Thaina.

A transformação também acontece com esses alunos, antes despercebidos, mas que agora atuam de modo positivo na educação. “Vejo as crianças evoluindo no idioma e sem faltar às aulas por gostar da dinâmica delas, me esforço para levar coisas diferentes e captar a atenção delas. Até na disciplina das demais crianças, tem melhorado muito com as responsabilidades que confiamos a elas, como ajudar na cozinha, na limpeza, tanto garotos como garotas”, reforça Isadora.

blog-3 blog-6 blog-7

Para o pai Eduardo Camacho Miranda, que acompanha o filho de 8 anos nas atividades, a participação da família é importante, “acho importante para que eles [os filhos] possam evoluir e tenham contato com coisas boas, futuramente o filho precisará do apoio do pai e da mãe”.

Se educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante – como já dizia Paulo Freire – muitos sentidos foram criados em cada sábado e domingo dedicados a ampliar o horizonte das sementes de hoje, que no futuro, serão os nossos frutos. Na esperança de cada professor e voluntário, e com um olhar curioso de cada jovem acerca do que está por vir, os desafios presentes no sistema educacional brasileiro pede por mais do que já temos em nossa comunidade: pessoas com grande potencial e novas formas de abordar a educação, apenas à espera de uma nova oportunidade para que se fortaleçam.

Desse modo, o Programa Escola da Família torna-se essencial à vida de muitas crianças e adolescentes, e mesmo com poucos recursos disponíveis, existem pessoas dispostas a lutar por uma educação mais democrática, mais digna e mais acessível. A verdadeira transformação vem de interior de cada ser humano que acredita que, com a educação e através dela, podemos construir um mundo e um futuro melhor.

blog-16