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Conhecendo o sabor dos ventos | Estágio do Combatente de Montanha

Senhor!
Vós que sois onipotente
Concedei-nos no fragor da luta
A nós que vencemos nas pedras
A nós que conhecemos o sabor dos ventos
O destemor para combater
A Santa dignidade para perseverar
A força da coragem para sempre avançar
E a fé para tudo suportar
E dai- nos também, ó Senhor Deus
Quando a guerra nos for adversa
E quanto maior for a incerteza
A determinação de nunca recuar
E ante o inimigo jamais fracassar

MONTANHA!

(Oração do Combatente de Montanha)

Longe das operações em ambientes urbanos e das patrulhas ostensivas da última SIEsp, chegou a vez de enfrentar o estágio mais enigmático da Seção de Instrução Especial: o Estágio Básico do Combatente de Montanha. Não lidaríamos apenas com as nossas próprias limitações – mais do que nunca, era necessário respeitar a natureza e nunca duvidar de sua magnitude.

O estágio, no qual os cadetes do primeiro ano da AMAN são submetidos, é realizado no Parque Nacional de Itatiaia. Em seu interior, encontra-se um dos picos mais altos do país, o Pico das Agulhas Negras, com 2.790 metros de altitude, sendo este o ponto culminante do estado do Rio de Janeiro e o quinto ponto mais alto do Brasil. O maciço, por sua vez, recebeu este nome devido às canaletas escuras e verticais.

O fino manto de gelo que cobria boa parte da vegetação denunciava as condições climáticas que iríamos enfrentar durante a semana: temperaturas negativas que chegaram aos -7ºC e ventos superiores a 60 km/h. Não foi fácil. Muito além de nossos medos e incertezas, a natureza nos abrigaria e lembraríamos o tempo todo que fazemos parte dela. Lembraríamos também que não somos superiores a nenhuma outra espécie ou forma de vida existente nesta terra.

No frio extremo da montanha, o espírito de corpo tornou-se essencial. É impossível viver neste mundo sozinho.

Para frente e para o alto: 2.790 metros

Quinta-feira, 05h30 da manhã. Na reta final do estágio, após diversas instruções realizadas durante a semana, era a minha vez de escalar o Pico das Agulhas Negras com os irmãos da caserna. Confesso que tive medo e dificuldades, mas a minha persistência e a vontade de conhecer o pico que deu nome à Academia Militar era maior. Então a marcha começou.

O abrigo ficava cada vez mais distante e o sol ainda não tinha nascido. No frio e na escuridão passamos por aquelas trilhas que nos levariam até a base do pico. Após a chegada, nos preparamos para a subida. Conforme subíamos, o ar se tornava cada vez mais rarefeito. Em diversos momentos da escalada recordei de algumas situações que foram difíceis para mim: felizmente, eu havia vencido todos esses dias. Já parou para pensar que você passou por todos eles também? E assim sobrevivemos.

Depois de três horas, lá estávamos nós. Marcada por um vento extremamente forte e um frio intenso, a subida tinha valido a pena. Uma vez ou outra, o som dos ventos dividia espaço com a oração do combatente de montanha, cantada pelos cadetes. Estávamos (literalmente) nas nuvens.

Às vezes, a nossa alma precisa de lugares que o homem ainda não modificou.

Prontos para descer, tínhamos apenas uma certeza: como já dizia Francis Bacon, só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe.

 

 

Laços de Honra – O outro lado do Exército é um projeto fotográfico que retrata a formação do oficial combatente do Exército Brasileiro. A série fotográfica contempla as quatro escolas de formação militar: a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).

www.paulamariane.com.br/blog

 

 

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